Quadrilhas, quadrilheiros, vestais e pitonisas no Portugal democrático

Ideias

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Moisés de Lemos Martins

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Foram precisos três longos anos para concluir o inquérito e deduzir a acusação ao antigo Primeiro Ministro, José Sócrates. No entanto, agora que isso aconteceu, já nada há que possa surpreender os portugueses. Vão ser precisos, ainda, longos anos para se chegar a uma condenação. Mas o que havia para entender, já todos o entendemos: foi possível no Portugal democrático termos sido governados por uma quadrilha de ladrões: José Sócrates e Ricardo Salgado, os cabecilhas; Armando Vara, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, os principais piões de brega; e depois, um alargado rol de ignotas personagens e de rufias, que nuns casos serviam o bando, e noutros viviam à custa dele.

Mas também não deixa de ser admirável que tenhamos tido instituições com força bastante para dar a resposta que se impunha, numa situação que, todavia, foi de alerta máximo para a democracia portuguesa.

Dito isto, não podem ser sonegadas importantes e incómodas questões, que se colocam à consciência democrática nacional. Porque, percebemo-lo hoje, ao logo de demasiados anos, as nossas instituições comportaram-se, muitas vezes, como canas agitadas pelo vento, e o nosso espaço público não se distinguiu, muitas vezes, de uma cloaca malcheirosa.

Ora, estas questões ninguém sequer as quer colocar.
Como foi possível, em democracia, que uma personagem com tão terríveis aleijões de personalidade abocanhasse um dos maiores partidos portugueses, sem que no Partido alguém desse por isso? A verdade é que o Partido Socialista seguiu Sócrates, de olhos fechados, até ao fim, calando o que não podia deixar de saber.

Como foi possível, em democracia, que uma personagem com tão terríveis aleijões de personalidade tomasse conta de um país, com a primeira e única maioria absoluta dada ao Partido Socialista?
E como puderam, Pinto Monteiro e Noronha Nascimento, ser guindados para a chefia de instituições que integram um órgão de soberania, como o são a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal de Justiça, se tudo o que sabemos deles é que, noutros processos, que podiam envolver Sócrates, prejudicaram o seu andamento regular, impediram investigações e mandaram destruir provas?

E o que dizer do nosso espaço público, infestado de vestais e pitonisas, que farisaicamente fazem saber, agora, que rasgam as vestes de indignação, mas cuja vozearia, em tropel, ao longo destes anos todos apenas serviu para nos confundir?

Ao longo de muitos anos foi praticamente impossível fazer uma verdadeira destrinça nos nossos média, tantas foram as autoridades de sarjeta que os contaminaram, impondo-se, todavia, no espaço público.
No Portugal moderno não há lugar para práticas que não sejam democráticas. Mas o ambiente em que vivemos foi tóxico demasiadas vezes e por demasiado tempo, a ponto de poder dizer-se que foi praticamente um milagre que o Ministério Público tenha podido concluir o inquérito e deduzir a acusação a Sócrates e à sua quadrilha.

Ambas as magistraturas, tanto a judicial como a do Ministério Público, prestaram ao país um serviço inestimável. E o país apenas lhes pode estar grato por isso. Mas é um facto, o milagre explica-se, sobretudo, por dois nomes: a Procuradora Geral, Joana Marques Vidal; e o Procurador Rosário Teixeira.

De um modo geral, e contando com cidadãos descuidados e pouco exigentes, os nossos média têm sido particularmente eficazes a sacudir a água do capote e a fazer fretes políticos, voluntariando-se para missões de propaganda. Temo-los visto em operações de camuflagem de interesses dúbios, nalguns casos criminosos; a propor agendas noticiosas alternativas, de favor político; enfim, temo-los visto, prestativos, a criar bodes expiatórios.
Veja-se o caso dos incêndios.

A dor da comunidade era demasiado grande, era mesmo impossível de suportar. E o país estava à deriva, impotente e inteiramente à mercê da calamidade.
Mas logo as nossas vestais e pitonisas de serviço, jornalistas, comentadores e atores políticos, saltaram para o meio do barco, patrulhando-o, à caça de vítimas prontas para o sacrifício.
O rol das culpas no cartório era esmagador para toda a gente. Ao longo de décadas, a nossa classe política promoveu políticas desordenadas sobre o território nacional e políticas florestais completamente irresponsáveis. E a nossa sociedade civil esteve sempre por todas, encolhendo os ombros. Por uma Proteção Civil, de favor político, e completamente inepta do ponto de vista funcional. Pelos nossos “heróis” impreparados, quais sísifos, que repetem e repetem e repetem, até à exaustão, atos de uma heroicidade trágica. Por madeireiros sem escrúpulos. Por pirómanos à rédea solta. Por irresponsáveis que fazem queimadas imprevidentes…

Mas a tempestade tornara-se imparável e o barco já naufragava. Nada mais havia a esperar em terra, mar e ar. E o centro de operações logo foi ocupado para estas vestais de patrulha do espaço público, que imediatamente se lançaram na caça à vítima, que pudesse ser jogada ao mar pela amurada fora, arcando deste modo com todas as culpas e assim aplacando a cólera dos cidadãos.

Entretanto, era a peste que percorria a cidade em devastação. E logo se apressaram, de novo, as nossas vestais de patrulha a construir a fogueira que queimou a bruxa, responsável pela epidemia. Deu-se até o caso de o nosso Sumo Sacerdote exigir semelhante sacrifício.
Vendo bem, nada que não estivesse inscrito na cultura ocidental, que tem mesmo o caso excecional de alguém que tomou sobre si as culpas de toda a humanidade, sendo por essa razão que lhe chamamos o “cordeiro pascal”, e mesmo, o Filho de Deus.

Mas as sociedades democráticas não precisam de vestais, nem de pitonisas, que andem à caça de vítima expiatórias, que arquem com a culpa e a responsabilidade de todos, como modo de esconjurar medos e de restabelecer o pacto social. É verdade, as sociedades democráticas precisam de restabelecer a harmonia no seu seio, sempre que ela se rompe. Mas apenas as políticas projetadas em nome da comunidade e para a defesa efetiva da sua vida é que são respostas de cidadania, que servem a democracia.

As vestais e pitonisas de sarjeta, que enxameiam a vida pública, mas que ninguém ousa colocar em questão, não esclarecem coisa nenhuma, não adotam uma pedagogia cívica, nem constituem o reduto de uma exigência superior de cidadania no seio da comunidade. Não passam de um exutório, por onde escorre o pus das dores insuportáveis, que possam grassar na comunidade, o exutório de uma atitude primitiva da comunidade humana, que todavia é sempre primitiva, em situações-limite.

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