Halloween e Dia de Todos os Santos: uma estranha relação?!

Ideias

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Hilário de Sousa

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As manifestações características do Halloween em Braga e em muitas outras localidades do país têm vindo a alastrar-se gradualmente, sobretudo desde a década de 80 do século passado, de acordo com a opinião do sociólogo Moisés Espírito Santo. O “Dia das Bruxas”, que começou por ser uma atividade circunscrita a determinados contextos escolares, muito associada a conteúdos programáticos da disciplina de inglês, é hoje um fenómeno de aculturação que não abrange apenas crianças e jovens. Um caso à parte dessa dinâmica escolar, fator de enorme incremento desta nova tradição em Portugal, é o Congresso de Medicina Popular que se realiza há mais de três décadas na pitoresca e mística aldeia de Vilar de Perdizes, em Montalegre.
Entre os bracarenses, além de muitas outras iniciativas, designadamente em estabelecimentos de ensino, começa a assumir cada vez mais relevância o evento “Bruxarias do Vale d’Este”, que este ano decorreu entre os dias 28 e 31 de outubro, em Este São Pedro, sendo esta a 5.ª edição de um certame alusivo ao dia das bruxas, com a presença de centenas de visitantes, entre os quais a figura incontornável do Padre A. Fontes.
A festa do Halloween é um ritual de lembrança dos mortos, cuja génese é o Samhain (“fim do verão”), um termo de origem celta, que também anunciava o início do ano novo. O Império Romano, ao invadir grande parte do território celta (43 d.C.), transformou e assimilou o Samhain, ao incorporar duas festividades, a Feralia (comemoração dos mortos) e a Pomonia. Com a cristianização, lentamente o Samhain, então uma junção de Feralia e Pomonia, foi transformado em Hallwmas (All Hallow’s Day), “Dia de Todos os Santos”. Há por isso uma relação entre a palavra Halloween, originária da expressão escocesa All-Hallows-Eve, que significa “antes da noite dos santos”, e o “Dia de Todos os Santos”, celebrado a 1 de novembro.
Contudo, a associação não se fica apenas pelo significado de ambas as expressões! Este feriado religioso, instituído no século VII (609 d.C.) pelo Papa Bonifácio IV, dedicado aos mártires e santos da Igreja Católica, surgiu como uma tentativa de substituição do antigo festival pagão, mas não foi de todo bem-sucedida, já que o Halloween persiste nos dias de hoje e prolifera cada vez mais, também potenciado pelo seu peso comercial, estimando-se que, só nos Estados Unidos, sejam gastos todos os anos 6000 milhões de dólares (cerca de 4000 milhões de euros) em máscaras, enfeites,…
No nosso país, o “Dia de Todos os Santos” converteu-se numa data de grande importância espiritual. Infelizmente, está também associada a um dos momentos mais terríficos da história nacional, o terramoto de 1755, precisamente no dia 1 de novembro, ocasião em que milhares de lisboetas se encontravam nas diversas igrejas espalhadas pela cidade. Como consequência dessa tragédia, surgiu uma das tradições nacionais, nomeadamente lisboeta, indissociável do “Dia de Todos os Santos”: o “Pão por Deus”.
Um ano após o terramoto, as crianças que ficaram numa situação de enorme precariedade saíram à rua, pedindo “Pão por Deus”, restos de broa e comida para mitigar a fome. Esta triste tradição manteve-se e até ganhou contornos festivos, mas entretanto quase desapareceu, ou talvez se tenha reinventado(!), devido ao aparecimento de outras festividades, como o Halloween. Esta influência norte-americana, apropriada de uma tradição levada pelos irlandeses para a terra do Tio Sam, na segunda metade do século XIX, em fuga por causa da Grande Fome (1845-1849), ajudou a espalhar e a popularizar a sua celebração. Um dos seus rituais consiste em as pessoas se mascararem e pedirem dinheiro ou comida de porta em porta, desencadeando o atual trick or treat (“doce ou travessura”).
Ontem, hoje e sempre, a fusão de tradições originárias de diferentes contextos socioculturais mostra como os indivíduos dessas comunidades concorrem para a transformação das sociedades e culturas em que se inserem. Mas tal não significa a anulação de alguns elementos das antigas estruturas sociais e culturais, antes a geração de novas realidades, que trazem consigo novos sentidos e funções. Esta evolução não é por isso linear, sofrendo sim mudanças de percurso, que levam a que a sociedade esteja em constante mutação.

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