Meu Brasil brasileiro!

Ideias

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Artur Coimbra

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Há duas semanas falhei a habitual crónica quinzenal, no que certamente ninguém terá reparado, e ainda bem, por me encontrar ausente no Brasil, concretamente no Rio de Janeiro, em representação do Município de Fafe e do Museu das Migrações e das Comunidades, para participar num seminário sobre 'O Brasileiro de Torna-Viagem e a Construção da Luso-brasilidade no Oitocentos', muito centrado nas memórias de Fafe, o qual teve lugar na Fundação Casa de Rui Barbosa.

O evento juntou professores universitários e investigadores e foi organizado pela Fundação Casa de Rui Barbosa, instituição vinculada ao Ministério da Cultura do Brasil, pelo Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense e pelo Município de Fafe.
Dos dias passados na cidade que foi capital do Brasil até 1960, deixo algumas impressões, naturalmente imbuídas de previsível subjectividade.
Desde logo, uma palavra de imensa gratidão ao povo brasileiro, pela sua congénita simpatia, pela abertura de horizontes, pela imagem que transmite de uma alegria que é natural. Herança de alguns portugueses, que não de todos, seguramente, pois anda por aqui demasiada gente sorumbática, sisuda, zangada com a vida, mais do lado da sombra que da luz.

Uma segunda nota para evidenciar o evidente orgulho que os brasileiros têm relativamente à sua ascendência portuguesa. Seja o taxista que nos leva do hotel ao aeroporto e que fala com afecto do seu avô português, seja a professora universitária que cultiva a memória do seu avô transmontano e se empenha em “falar português de Portugal”, em homenagem ao seu familiar que tanto lhe diz.
Julgo que é sentida, autêntica e genuína esta expressão de desvanecimento dos brasileiros que sempre têm um pai, um avô ou um bisavô para mostrar que todos, afinal de contas, somos portugueses. Do lado de cá e do lado de lá, irmanados pelo imenso Atlântico que leva mais de 9 horas a atravessar!...

É sabido que a vaga da emigração para o Brasil se prolonga ao longo de um século, entre meados do século XIX e meados do século XX, altura em que se volta para a Europa e sobretudo para França, para ajudar à reconstrução dos países ocidentais.
No caso do Brasil e nesse intervalo, foram mais de 1 milhão e meio de portugueses que desembarcaram em Terras de Vera Cruz à procura de uma vida melhor, para ganhar ou reforçar fortunas, naquele que era considerado o país da “árvore das patacas”…

E se uma pequena percentagem conseguiu de facto enriquecer e retornar às suas terras, onde desenvolveu vilas e cidades, criou indústrias, apostou na filantropia e em obras sociais (asilos, hospitais, misericórdias), construiu e equipou escolas, embelezou os centros urbanos com jardins românticos e belíssimos palácios e palacetes ao “gosto” brasileiro (marcas de que Fafe é um paradigma), a imensa maioria ficou pelos Brasis, seja porque não conseguiu concretizar o sonho de enriquecer, e não regressou por vergonha, seja porque não passou da cepa torta, como soe dizer-se, e não voltou por falta de meios, seja por opção por uma terra tentadora e onde é fácil a adaptação à língua, ao povo, ao clima. Todas essas razões estão plasmadas e eternizadas nesse imenso território que não pode deixar de nos envaidecer.

O dia-a-dia de uma cidade imensa, com mais de 6 milhões de pessoas, é estonteante, sem dúvida. O trânsito rodoviário é infernal. A condução nas estradas e nas ruas parece não ter regras nem leis. Cada um desenrasca-se da forma que melhor pode e sabe e no fim todos participam, sem grande apitadelas, nem revoltas, nem indignações, como entre nós, nesse caos desordenado que é “dirigir” nas artérias pejadas de automóveis e autocarros.
Vale a extraordinária rede de metropolitano (“metrô”) que serpenteia, quase de minuto a minuto, as entranhas da grande cidade. Fantástico!

De resto, o Rio de Janeiro é uma cidade turística por excelência. O maior destino turístico internacional do Brasil e da América Latina e a cidade brasileira mais conhecida no exterior, apesar de ser a segunda maior metrópole brasileira, depois de S. Paulo. A “Cidade Maravilhosa”, um dos principais centros económicos, culturais e financeiros do imenso país, impõe belezas e ícones culturais e paisagísticos como as belíssimas praias de Copacabana, Ipanema e Leblon, o Pão de Açúcar, o morro do Corcovado com a estátua do Cristo Redentor, o Maracanã, o sambódromo (onde já se prepara o Carnaval do próximo ano…), o faustoso Teatro Municipal do Rio de Janeiro (onde tive o privilégio de assistir a um espectáculo de Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo), os fantásticos museus (visitei o Museu do Amanhã, inaugurado em 2015. Simplesmente soberbo…).

Por tudo isso, parte da cidade foi classificada pela Unesco como Património Cultural da Humanidade em 2012, caracterizada como uma “Paisagem Cultural”.
Cidade onde dominam palavras pitorescas, como o calçadão (passeio à beira mar), o orelhão (cabine telefónica), o mergulhão (passagem inferior desnivelada), a que muitas outras se poderão acrescentar.
Como não há bela sem senão, o Rio de Janeiro é também caracterizado consabidamente pela insegurança, pela violência, pelo medo. O que já não é pouco…

As ruas e passeios não primam propriamente pela limpeza e pelo perfume, nem pela regularidade do piso. Os sem-abrigo são incontáveis, num país em crise permanente.
A população reclama, transversalmente, dos governantes e da corrupção em que a classe política se afunda e que a comunicação social todos os dias noticia abundantemente. “O trabalhador trabalha e o governo atrapalha” como jocosamente nos relataram, queixando-se amargamente dos impostos elevados e sem retorno, da educação e da saúde públicas que deixam muito a desejar, da burocracia que tudo tolhe e que deve ser uma herança dos portugueses, parece-me.
De todo o modo, em trabalho ou em férias, o Rio de Janeiro é um óptimo destino, no âmbito da pátria comum da língua portuguesa, que une as diferentes partes do mesmo coração pelo mundo em pedaços repartido!

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