A queda de um mito

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Carlos Pires

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“Kramer contra Kramer” (1979), “Rain Man - Encontro de Irmãos” (1988), “American Buffalo” - eis alguns dos títulos de filmes protagonizados por Dustin Hoffman, um dos meus atores preferidos, vencedor de dois óscares da Academia de Cinema de Hollywood. Além do indiscutível mérito artístico, tinha por este ator especial admiração, atenta a sua personalidade discreta.

Recentemente Dustin Hoffman foi acusado de assédio sexual pela escritora Anna Graham Hunter, que se queixa do comportamento do ator em 1985, quando ela tinha 17 anos e trabalhava como estagiária nas rodagens de filmes. A escritora conta alguns dos episódios: “Ele flirtava abertamente comigo, apalpava-me o rabo e falava comigo e à minha frente sobre sexo. Uma manhã fui ao camarim dele para anotar o que ele queria tomar ao pequeno-almoço. Ele olhou para mim, sorriu e fez um compasso de espera. E disse - vou querer um ovo cozido e um clitóris a ferver. A comitiva dele riu-se. Eu fiquei sem palavras, fui a correr para a casa de banho e chorei”.

O ator já reagiu num comunicado, pedindo desculpa pelo seu comportamento.
Nas últimas semanas, a onda do assédio sexual tornou-se tsunámica. E em diversas áreas - do cinema à moda, passando pela política. As vítimas são maioritariamente mulheres, mas também há homens. Começou nos EUA, com o produtor cinematográfico Harvey Weinstein. Depois, chegou ao Reino Unido - com o encenador de teatro Max Stafford-Clark -, França - com o professor universitário e intelectual muçulmano Tariq Ramadan -, e novamente aos EUA - com o ator Kevin Spacey (acusado há dias pelo ator Anthony Kapp de o ter assediado aos 14 anos!). Finalmente, foi responsável por forçar a demissão do ministro da Defesa do Reino Unido, Michael Fallon, depois de uma jornalista ter revelado que ele lhe pôs a mão na perna, durante um jantar, há 15 anos.

O problema, claro, não começa nem acaba em Hollywood. Em Portugal, por exemplo, os números de queixas que dão entrada na Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE) são irrisórios mas, de acordo até com os estudos da mesma entidade, estão bem longe de representar a população afetada.

Mas Hollywood é um “ master plateau” deste tipo de abuso sistémico de poder de teor sexual. Infelizmente, não é surpresa que alguém use do seu poder e influência para cometer atos censuráveis. Também não é surpreendente a forma como esse alguém usa o seu poder e influência, nomeadamente junto dos “media”, para calar as suas vítimas. Mas o que permitiu Hoffman, Weinstein, Spacey e os outros a comportarem-se assim durante décadas, no meio do silêncio de toda a gente, incluindo das suas vítimas? A cultura instalada. Uma cultura assente na ideia de que este tipo de agressão é uma “brincadeira”, de que a perseguição sexual, os comentários de conteúdo sexual explícito dos homens para as mulheres - sobretudo as que estão em situação de inferioridade - são tolerados; uma cultura que legitima a ideia de que o poder e o dinheiro permitem aos homens liberdades sexuais mais ou menos explícitas perante (sobretudo as mulheres) os mais jovens e os mais frágeis.

E a culpa não é só desses predadores. É também nossa. É nossa porque “olhamos para o outro lado”, porque fingimos que não vemos ou porque nos autoconvencemos (desonestamente) que “é normal”, porque continuamos a frequentar espaços e a idolatrar pessoas que praticam abusos de poder. Somos cúmplices desta cultura nojenta que dá a quem tem poder o direito de abusar de quem não o tem. Há todo um sistema que protege os abusadores. E esse sistema é responsabilidade nossa, emerge da sociedade que construímos todos os dias.

De qualquer forma, é animador o vento que sopra desta revolução de Outubro. O facto de muitas mulheres - que nada têm a ganhar em contar as suas histórias - ajudou o tema a ganhar pulsão a uma escala mundial. Muitas delas já tinham feito queixas anteriormente e foram difamadas, silenciadas ou ignoradas. Por outro lado, as empresas, instituições, séries de TV ou governos afetados por este tipo de acusações tiveram reações invulgarmente rápidas e exemplares: cancelaram contratos, despediram, desvincularam-se. Por exemplo, a Netflix anunciou o rompimento de todos os laços com o ator Kevin Spacey e que não irá continuar com 'House of Cards' enquanto a série o incluir.

Acredito que a partir de agora assistiremos a uma rápida mudança de consciências. Acredito que o assédio se tornará menos comum, porque as queixas de assédio sexual são agora a guilhotina que aniquila uma carreira. É a queda de um mito. Sim, já não consigo olhar para o trabalho de Dustin Hoffman da mesma forma, não consigo. A parte boa é que é também a queda do mito de que o poder pode tudo, incluindo abusar de alguém.

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