Quando a Filosofia vai à escola - ‘Filosofia para pequenos grandes filósofos’

Escreve quem sabe

autor

Cristina Palhares

contactarnum. de artigos 63

No próximo sábado Rosa Proença apresenta o seu livro infantil na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Uma incursão pelo mundo da filosofia para crianças. Não, não é um novo tratado filosófico. Não, também não é uma nova disciplina. Sim, um livro de crianças e para crianças… excelentemente ilustrado. Este sempre foi um tema pessoal que percorreu toda a minha formação profissional. Desde a formação inicial até à atual, revisitei e apliquei o programa de Mathew Lipman a múltiplos grupos de crianças, de muitas cores e feitios, de muitos e poucos saberes, de muita e pouca idade.

O Programa de Filosofia para Crianças foi criado na década de 60 pelo filósofo norte-americano Matthew Lipman visando cultivar o desenvolvimento das habilidades cognitivas mediante discussões de tópicos filosóficos. A partir de 1976, o programa espalhou-se pelo mundo e actualmente 50 países estão envolvidos no projecto.

A utilização internacional e as pesquisas desenvolvidas em vários países demonstram que Filosofia para Crianças - Educação para o Pensar é uma abordagem promotora do desenvolvimento do pensar e da cidadania: cultiva as habilidades cognitivas; incentiva o diálogo investigativo sobre a experiência humana em geral, transformando a sala de aula em verdadeiras comunidades de investigação; trabalha com uma metodologia específica e bem elaborada que oferece materiais de apoio aos alunos e professores; promove um verdadeiro processo de construção colectiva do conhecimento a respeito dos temas levantados.

Como programa educacional visa três objectivos intercomplementares: (i) iniciação filosófica de crianças e jovens; (ii) educação para o pensar; (iii) preparação para uma cidadania responsável - comunidade de investigação, ética e de cidadania. O aspecto central da metodologia do Programa é a realização do diálogo investigativo que transforma os grupos de crianças/jovens em pequenas comunidades de investigação. Nelas, os participantes expõem as suas ideias, ouvem-se uns aos outros, questionam-se mutuamente, comparam os seus pontos de vista, complementando-os e eventualmente, corrigindo-os. Trata-se de um verdadeiro processo de cooperação intelectual, afectiva e criativa.

Quando se pondera, responde-se, torna-se responsável (Lorieri, s.d.2). Para Lipman há algo em comum entre as crianças e os filósofos: a capacidade de se maravilhar com o mundo. E aqui surge uma outra ideia sempre presente nos meus pensamentos, na minha escrita: a capacidade de se maravilhar, a capacidade de se espantar. E daí, a capacidade de perguntar: Porquê, para quê, Porquê, para quê, por…. Quê? As crianças ficam intrigadas com os mesmos conceitos problemáticos, ou seja, colocam questões sobre a verdade, as regras, a justiça, a realidade, a bondade, a amizade, etc.

Necessitam, portanto, de uma educação filosófica para tratar destas questões e, simultaneamente, aprender os processos do raciocínio e do julgamento. Filosofia para Crianças tem por objetivo introduzir de forma intencional e sistemática a investigação filosófica na formação das crianças desde os primeiros anos da educação formal e informal. Fazer filosofia com as crianças é criar esta prática de pensar, um ambiente onde as perguntas da criança sobre conceitos comuns, centrais, controversos e problemáticos da experiência infantil possam ser adequadamente investigados e não simplesmente respondidos com “verdades absolutas” ditadas pela experiência do adulto.

O pressuposto deste paradigma educacional é o de que a educação deve começar onde está a criança e não onde está o professor. Trata-se, antes de mais nada de respeitar a dignidade da criança, um ser ativo, presente, que brinca, pensante, portador e produtor de saberes. Trata-se de garantir o direito à liberdade de pensar, de escolher, de agir e de se expressar. E então….? Obrigada Rosa. Pelo teu livro, pela forma como pensaste nas nossas crianças, pela importância que lhes deste, transformando-as nos verdadeiros filósofos.

E trazendo-nos aqui para partilhares connosco uma preocupação: a curiosidade das nossas crianças. Assim é. A curiosidade é muitas vezes o expressar da capacidade de admirar, de nos espantarmos. Quando nos espantamos, quando admiramos…. Perguntamos. Perguntamos sim. Queremos saber mais. Não as “verdades absolutas” mas sim, queremos saber mais, descobrindo, passo a passo, porque nos voltamos a espantar. Admiramos, espantamo-nos, perguntamos. Um triângulo sem pontas agudas…. Fixei uma palavra lá atrás.

Quando falávamos de conceitos problemáticos que a filosofia para crianças evidencia: a verdade, as regras, a justiça, a realidade, a bondade, a amizade. A bondade. A bondade, em que Richard Davidson, professor de psicologia e psiquiatria na universidade de Wisconsin (EUA) acredita. Ele acredita que a base de um cérebro saudável é a bondade. E a bondade é o que preside numa comunidade de investigação que Filosofia para Crianças promove: bondade é respeitar os pontos de vista do outro; bondade é saber que o seu ponto de vista tem o mesmo valor e peso do do outro; bondade é respeitar a vez dos outros e exigir respeito pela própria vez; bondade é respeitar regras combinadas que são necessárias para a vida em comum; bondade é saber que todos somos iguais; que todos somos igualmente dignos de respeito. E a bondade, tal como diz o professor Richard Davidson treina-se. E é isso que a filosofia em contexto de sala de aula faz: treina a bondade. Assim será este livro. Da admiração, ao espanto, à pergunta… até à descoberta… sob os auspícios da bondade. Um livro bom.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Escreve quem sabe

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia