Afinal, já saímos ou não do Holoceno?

Ideias

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João Ribeiro Mendes

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Há dezassete anos, no último ano do terceiro milénio, portanto, o Nobel da Química holandês Paul Crutzen e o limnologista estadunidense Eugene Stoermer propuseram o neologismo “Antropoceno” (composto dos vocábulos gregos “anthropos”, homem e “kainos”, novidade completa, sem precedente) para designar o mais recente tempo geológico em que nos encontramos a viver, singularizado pela nossa espécie se ter tornado numa força com impacto global no sistema terrestre.

Todavia, se o termo apenas circula há perto de duas décadas, já o conceito tem século e meio de vida. Foi supostamente Antonio Stoppani quem primeiro o avançou no seu Corso di Geologia em 1873, mas denominando-o, antes, “Antropozóico”.
A irrupção dessa “nova força telúrica cujo poder e universalidade podem ser comparados às maiores forças da terra”, nas palavras do padre geólogo italiano, teria trazido também o fim do Holoceno, o período interglaciar de onze milénios, marcado pela relativa estabilidade climática, que favoreceu o florescimento de diversas civilizações humanas.

Mas isso aconteceu já? Habitamos nós (n)o pós-Holoceno? Quem está especialmente incumbido de dar uma resposta a essa questão é o Grupo de Trabalho do Antropoceno (GTA), constituído em 2009 sob a liderança do geólogo britânico Jan Zalasiewicz, com trinta e oito membros, incluindo maioritariamente cientistas naturais, mas contando também com cientistas sociais e jornalistas ambientais.

No início do passado setembro, por ocasião do 35º Congresso Geológico Internacional na Cidade do Cabo, África do Sul, o GTA concluiu, entre outras coisas, que: (a) o conceito de “Antropoceno”, tal como articulado por Crutzen e Stoermer em 2000 “é geologicamente real”, isto é, que “o fenómeno possui suficiente escala para poder vir a ser considerado parte da Tabela Cronoestratigráfica Internacional” (dos trinta e cinco membros presente, só um se absteve e os demais votaram favoravelmente esta conclusão); (b) o Antropoceno poderá corresponder a uma nova Época geológica - em vez de uma Idade (unidade de tempo geológico mais breve) ou de uma Era (unidade de tempo geológico mais longa) - (a este respeito, três membros do GTA votaram contra e outros dois abstiveram-se); (c) o início mais provável para o Antropoceno poderá estar em meados do século XX, altura em que se verificou “grande aceleração” nas taxas de erosão e sedimentação, perturbações químicas em grande escala nos ciclos de carbono, nitrogénio, fósforo e outros elementos, alterações climáticas globais significativas e perda significativa de biodiversidade, nomeadamente por extinção de espécies.

Todas essas conclusões, claro, aguardam evidências decisivas em suporte das mesmas. Neste caso o GTA busca ainda o chamado estratótipo ou limite estratigráfico global, isto é, marcas deixadas por um fenómeno único em boa parte da geologia terrestre. A caça a esse “golden spike” (literalmente um prego dourado que se espeta numa secção rochosa para assinalar o a fronteira entre dois estratos), como é popularmente conhecido, está aberta e menos de um terço dos membros do GTA aposta que o candidato mais forte é o plutónio dos testes nucleares atmosféricos realizados no início da Guerra Fria, que permanecerá em sedimentos nos próximos cem mil anos decaindo em urânio e depois em chumbo. Na nova ronda de discussão do assunto já agendada para o 36.º Congresso Internacional de Geologia (março de 2020, Nova Deli, Índia) veremos o que o GTA avançará. Até lá permaneceremos na dúvida se somos os senhores da Terra.

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