A sombra e a vara

Ideias

autor

José Manuel Cruz

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Que não se endireita sombra de vara torta, recorda um António Costa, cidadão ratificado como primeiro-ministro por furtuita conciliação de circunstâncias. Aforismo proferido a propósito de reivindicações sindicais, por uns tempos de serviço que os governantes preferem não contabilizar, coisa à roda de uma dezena de anos, segundo consta, lapso temporal que existe para todos os demais efeitos dos envolvidos - profissionais, sociais, cívicos - que não deixa de lhes chegar coima ou multa por contravenção cometida entretanto. Uns anicos que o sahib Costa prefere dar como não existentes. É de mágico, digo eu. É coisa para ficar nos anais da História, e de levar de palmatória uns dez dias que, em 1582, desapareceram por bula papal.
Não discuto orçamentos, nem esforços financeiros. O senhor António Costa até poderá estar convencido que as finanças públicas não aguentam, que atrás das reivindicações de uns virão as de outros, e que lá acabamos nós no mesmo buraco. Repito: o senhor António Costa até poderá ter razão, tanta como a que assiste aos grevistas, como ele próprio parece reconhecer. Será uma questão de pontos de vista? De opiniões? Prevalecerá o palpite do que está por cima? Alternativamente: será a Educação uma treta?
Terá o grande faquir caído “na real”? Por onde anda esse nosso mago capaz de vaca elevar nos ares e de a fazer transpor distâncias em voo low cost, por mero passe encantatório? Por momentos já me dá a impressão de que o governo mete os pés pelos pés, pelo simples facto de já não ter mãos para nada.
Não se endireita a sombra de vara torta, reza o adágio de borda-d’água em que o senhor Costa se quer amparar. A sombra torta, percebemos, é o deplorável legado daqueles que o precederam, com os quais o honorável do momento nada tem a ver. Pessoalmente, é claro. Eu até acredito que, se pudesse, o senhor Costa refundaria o estado e a nação portuguesa do zero, sem vícios nem dívidas pendentes. Talvez lhe puxasse o entusiasmo para o período anterior ao conde D. Henrique, o borgonhês, que, como assim, os de cá são hospitaleiros, e até de deixam guiar por quem diga umas coisas de hábito pouco ouvidas. Credulices de galegos e lusitanos.
Quem não vai em filosofia popular são as instituições europeias. Será verdade que a Tecnoforma tem uns milhões para devolver? Eu, como assim, estou varado, mas de vara tesa, direitinha! Será como a historieta dos submarinos, que deram cadeia a corruptores, que, por si, aparentemente, a ninguém corromperam? Muito eu gostava de ser patriota, de bater o pé a belgas e alemães, mas estou que não sei para que lado cair.
Não se endireita sombra de vara torta! E para endireitar a vara propriamente dita: não daria? Deixemos de lado casos complicadíssimos de dinheiros, favores e negócios oblíquos. Tomemos atitudes, tão-somente. Em que testa baixinha cabe a iniciativa de jantaricos no Panteão Nacional? A ideia de uns vol-au-vents, de uns caterings de faqueiro completo, em Serralves, com uns Miró na parede, ainda a engulo. Até imagino dois totós a discutir a posição de um quadrito, se está do direito ou de pernas para o ar. A ideia de uma patuscada no museu dos coches, com sumidades de folhos e peruca, de florete à cintura, também me parece de aplaudir; ou uma magustada na cerca de Tibães; ou um bailarico de debutantes no salão nobre do Nogueira da Silva. Agora: um beberete no Panteão?! Em homenagem aos ilustres da Nação? Mas isso não se faz com uma coroa de flores viçosas, com um quarteto de câmara, com um cantor ou cantora lírica? Com um poema ou excerto imorredoiro? No Panteão admitem-se evocações de notáveis, cerimónias de reafirmação de um destino comum; admitem-se discursos respeitosos, sussurros e silentes aprovações, não tinires de talheres e tiradas do tipo ó-se-faz-favor-deite-me-uma-pinga-que-este-é-do-bom!
O drama de Portugal passa pelo arrivismo, pelo nepotismo de gentinhas com mais ambição do que cultura, com mais empáfia do que sabedoria, com mais jogo de cinta do que verticalidade, aprumo ou vergonha. Assim, por muitas ressalvas que se avancem, quem meteu o Panteão de forma avulsa e mesquinha no mesmo saco de cenários para coboiadas de peralvilhos endinheirados, pois esse não merece o bilhete de identidade que ostenta. E, por muito que custe, aquele que, podendo, não os põe da loja para fora, pois esse também não. Escarnecer da bandeira, parodiar o hino, é odioso mas ainda vá que não vá. Desrespeitar os ilustres, ou a sua representação, aí já é sacanear aqueles para cuja excelência todos deveríamos pender. 

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