Augusto Lima: Famalicão Made IN mostra a excelência empresarial

Entrevistas

autor

Rui Alberto Sequeira

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O Famalicão Made IN - Gabinete de Apoio ao Empreendedor tem sido uma mais-valia para o tecido empresarial do concelho famalicense, permitindo o reconhecimento da capacidade das empresas instaladas e abrindo portas à chegada de mais investimentos. Augusto Lima coordenador do projecto lançado pelo Município, em entrevista à rádio Antena Minho e ao Correio do Minho, passa a mensagem que Famalicão é um território bom para investir e sublinha a aposta na formação de quadros intermédios para o sector industrial.

P - A iniciativa Famalicão Made IN começou em 2013 e passa, num concelho que é o terceiro mais exportador do país, por valorizar e afirmar o potencial económico do município ficando associado ao conceito ‘Um Concelho com Marca’. O que é que mudou no tecido empresarial de Famalicão com o Made IN?
R - O principal resultado daquilo que tem sido o nosso trabalho é a proximidade ao tecido empresarial /industrial do concelho de Vila Nova de Famalicão, aos empreendedores, aos empresários e aos seus trabalhadores. Por outro lado, o Famalicão Made IN trouxe também a possibilidade de mostrar aquilo que de bom se faz no município no plano empresarial e industrial.

P - Famalicão é um concelho com empresas claramente viradas para a exportação, esse é um aspecto que é tido em conta pelo Famalicão Made IN.
R - Uma das vertentes do conceito ‘Um Concelho com Marca’ foi mostrar que muitas das empresas e boas empresas existentes no país, estão em Famalicão. Quisemos passar a mensagem de uma forma muito forte, numa perspectiva de dizer que o concelho tem um ADN empresarial que permite que haja negócios. Uma das principais intervenções da iniciativa Famalicão Made IN foi dar voz às empresas, dar voz aos projectos, aos produtos das empresas, dar visibilidade aquilo que se faz em Famalicão e demonstrar que não é por acaso que Famalicão é o terceiro concelho mais exportador do país e o segundo que mais contribui, de uma forma positiva, para a balança comercial.

P - Essa notoriedade que pretendem acrescentar a Vila Nova de Famalicão permite trazer novos investimentos para o território?
R - Para além dos melhores estarem em Famalicão, nós temos também aquilo que poderá ser uma rede de empresas que podem ser potenciais clientes e potenciais fornecedores e, portanto, as empresas podem vir instalar-se no nosso concelho uma vez que ficam próximas dos que podem vir a ser os seus fornecedores ou clientes. Nessa vertente o Famalicão Made IN - Gabinete de Apoio ao Empreendedor quer dizer que é este é um território bom para investir.

P - Têm surgido nos últimos tempos anúncios de reforço de investimentos em Famalicão por empresas que já estão instaladas no concelho. Há novos investidores?
R - Há novos investidores. Para além de darmos condições a quem já se encontra no município, porque é importante acarinhar quem está no concelho e quem trabalha bem, obviamente que queremos atrair mais empresários. Isso de facto tem acontecido. Posso adiantar em concreto que temos investidores franceses interessados em instalarem-se no concelho - é quase um nicho.

P - Em que áreas?
R - Principalmente em metalomecânica e injecção de plásticos.

P - Era um nicho pouco visível em Famalicão?
R - Não era muito visível de facto, mas com a proximidade que temos feito à Câmara de Comércio e Indústria Luso Francesa, à embaixada, começam a surgir resultados desse trabalho.
P - Tradicionalmente Famalicão era um município onde predominava o sector têxtil. Essa situação alterou-se?
R - Historicamente o concelho de Famalicão estava muito vocacionado para a industria têxtil e do vestuário. É verdade que com as crises sucessivas do sector, os empresários e as respectivas empresas foram capaz de um salto e por isso Vila Nova de Famalicão é hoje um território mais multidisciplinar, mais diversificado no que concerne ao tecido industrial. Mantemos ainda assim quatro ‘clusters’ bastante fortes: a industria têxtil e vestuário, o agroalimentar ao nível da transformação de carnes, a metalomecânica e as empresas que trabalham para o sector automóvel.

P - Famalicão já não é um concelho de mono indústria, mas o têxtil continua a ter uma forte presença, mas mais qualificada.
R - Certamente que sim. Continua a ser uma força económica do concelho, mas hoje já numa perspetiva mais qualificada, de acrescentar valor aos seus produtos. Para isso contribuiu muito uma das infra--estruturas tecnológicas que se encontra em Famalicão e que é o CITEVE.

P - Ao qual esteve ligado?
R - Muitos anos, sim!

P - O CITEVE foi essencial para que a industria têxtil não se tivesse perdido com as transformações que ocorreram no sector nos anos oitenta/noventa?
R - Na minha opinião foi fundamental em diferentes fases. Numa primeira fase nas questões relacionadas com a qualidade depois na diferenciação do produto e da inovação. Hoje de facto o têxtil e o vestuário dificilmente são competitivos pelo preço. São competitivos porque atuam em nichos de mercado, porque os produtos têm qualidade, diferenciação e acompanhamento do pós-venda. Nesta óptica o têxtil evoluiu.

P - Um dos ‘clusters’ importantes que nomeou no município de Famalicão é o do agroalimentar. Está também previsto um centro de investigação e formação ligado principalmente á transformação de carnes.
R - Tem sido um dos objectivos do presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão concretizar o Centro de Competências do Agroalimentar na indústria de carnes. Neste momento temos o Centro candidato ao mapeamento das infraestruturas tecnológicas feito pela Agência Nacional de Inovação e estamos a aguardar uma decisão.

P - Qual é a importância que esse centro vai ter?
R - Da mesma maneira que o CITEVE teve e tem importância para o sector têxtil, nós acreditamos que este Centro de Competências para o Agroalimentar também vai ser determinante no futuro do sector ao nível da transformação de carnes, ou seja, na perspectiva da qualificação, nomeadamente das pessoas - onde existe bastante necessidade - e depois em áreas como a inovação e o desenvolvimento do produto.

P - É uma indústria que ainda pode crescer em Famalicão?
R - Nós acreditamos que existe essa possibilidade de crescimento.

P - Nestes três anos que leva de gestão do Famalicão Made IN - Gabinete de Apoio ao Empreendedor tem existido um reforço de investimento nesta área?
R - Mais de quem já está instalado nomeadamente através do crescimento dos postos de trabalho.

P - Existem dados recentes que apontam para uma redução do número de desempregados inscritos no centro de emprego de 11 mil para menos de 6 mil em três anos.
R - Inscritos como desempregados são cerca de 5 800 que consideramos ser o denominado desemprego estrutural. Ainda há trabalho a fazer a esse nível, mas já estamos com números de desemprego estrutural difíceis de alterar.

P - Uma das empresas ligadas ao têxtil e vestuário que recentemente foi visitada no âmbito do Roteiro Famalicão Made IN queixava-se da falta de costureiras e quadros técnicos intermédios.
R - Tem sido uma constante. Nós temos trabalhado muito de forma a poder dar resposta a estas necessidades. Por um lado as empresas estarem a necessitar de pessoas significa que estão com bastante dinâmica mas por outro lado o concelho no seu todo tem de dar uma resposta rápida de forma a que as empresas não percam os seus negócios. No caso do têxtil e das costureiras das modelistas, actividades mais técnicas mais específicas, está a ser uma necessidade neste momento porque de facto, há carências de mão de obra a esse nível

P - Essa carência de mão-de-obra advém também de ser um sector que não tem salários muito atractivos?
R - O salário pode ser um aspecto a ter em conta, ainda que pense que a maioria das empresas já paga vencimentos acima do próprio salário mínimo. Na semana passada estivemos, no âmbito do roteiro Famalicão Made IN, numa empresa que distribui os lucros pelos seus trabalhadores. Creio que essa questão dos salários é uma matéria obviamente importante, ainda são salários baixos sem dúvida, mas são já acima do salário mínimo nacional. Por outro lado, estamos a falar de um sector duro, pesado em que as pessoas trabalharam muito tempo a fazer as mesmas coisas, saíram e agora não se encontram motivadas para regressar. Entidades; entre elas nós, a Câmara Municipal; muito têm feito para mudar a imagem do sector que precisa de criatividade, inovação, diferenciação, design e de outros tipos de perfis profissionais.

P - Apesar da estratégia para mostrar que existem sectores empresarias dinâmicos em Famalicão e que no capítulo dos salários já pagam acima das médias do distrito, recentemente um relatório intercalar; apresentado pelo Município de Famalicão; do Plano Estratégico que se encontra definido até 2025, havia resultados de uma consulta aos famalicenses em que estes manifestavam insatisfação pelos rendimentos auferidos.
R - De facto ainda há situações por resolver, mas por outro lado também existe outro indicador nesse relatório que nos diz que a maioria dos famalicenses têm um índice de felicidade acima das médias nacional e europeia.

P - Tem existido por diversas entidades o reconhecimento do papel do Famalicão Made IN na dinamização e potencialização económica. A Universidade do Minho considerou o Município de Vila Nova de Famalicão, o Município do Ano 2016 da Região Norte e um conjunto de empresas instaladas no concelho integraram o primeiro workshop do projecto de investigação Indústria 2030 (i2030) que é uma iniciativa do Instituto Superior de Economia e Gestão das Universidades de Lisboa e da Católica em parceria com a Ordem dos Economistas e o Ministério da Economia.
R - São dois momentos que mostram essa evidencia de que o concelho já é mais reconhecido. No caso do prémio atribuído pela UMinho foi para nós importante porque é uma entidade reconhecida, idónea, prestigiada e portanto ter obtido o prémio serve para mostrar aos famalicenses, aos empreendedores, aos empresários, que nós trabalhamos de forma séria e rigorosa e é um incentivo á equipa do Famalicão Made IN a fazer mais e melhor.

P - As diversas distinções europeias que o Município tem recebido ajudam a atestar o conceito de ‘Um Concelho com Marca’.
R- Exactamente. No caso do i2030 é um sinal de que outras entidades, fora do concelho e da região, estão atentas aquilo que acontece em Famalicão e quiseram vir ao terreno ver o que se passa e conhecer a força industrial do território. As instituições ligadas a este projecto falaram com nove empresas de diversas áreas e tiveram contacto com a dinâmica do que está a acontecer no concelho.

P- A Administração Central tem reconhecido essa dinâmica de Vila Nova de Famalicão enquanto terceiro maior exportador do país?
R - Estamos a dar passos para que Administração Central possa reconhecer ainda mais esse papel do Município. É, no entanto, uma questão que não nos preocupa se for só pelo reconhecimento em si.

P - O reconhecimento traduzido em políticas facilitadoras da actividade empresarial.
R - Sim, aí não queremos ficar de facto para trás mediante aquilo que temos realizado e que Vila Nova de Famalicão tem feito no plano industrial.

P - A variante á Estrada Nacional 14 (EN14) para o acesso a uma das zonas industriais do concelho onde se localizam algumas das grandes empresas exportadoras é uma reivindicação recorrente.
R - Seria um reconhecimento, o avanço dessa obra infraestruturante.

P - As vias de comunicação são o principal constrangimento à captação de mais investimento para o Município.
R - No zonal sul do concelho é de facto o principal constrangimento. Em todas as outras zonas industriais não. Ainda temos espaços nas áreas industriais para acolher novos projectos. São seis zonas industriais espalhadas pelo território concelhio famalicense.

P - Nos últimos três a quatro anos parece ser consensual nas políticas dos autarcas portugueses o foco na captação de investimento, a criação de vias verdes para o investimento. O que é que o Famalicão Made IN tem de diferenciador em relação a outras estratégias municipais?
R - De facto passou a ser quase moda nos Municípios, o que é positivo porque pode ajudar a resolver alguns problemas estruturais do próprio país. Por outro lado, estimula uma competitividade saudável entre as autarquias. No que diz respeito ao Famalicão Made IN, eu penso que Famalicão tem a oferecer três ou quatro aspectos fundamentais. Desde logo a localização. É um concelho que está próximo do aeroporto e do porto de Leixões. É servido por duas autoestradas, apesar de algumas acessibilidades mais internas, que já falámos, não serem as ideais. Temos os recursos humanos. Temos 53% dos nossos jovens no ensino profissional. A indústria precisa de quadros intermédios e estes quadros intermédios são trabalhados pelo
ensino profissional. Realizámos um esforço muito grande pela rede de educação e informação do concelho numa perspectiva de apresentar uma oferta formativa com base nas necessidades das empresas. Temos depois um outro factor importante, no têxtil é por demais evidente, que é termos o CITEVE no concelho. O CITEVE e o CENTI - Centro de Nanotecnologia Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes e os dois pólos universitários (Universidade Lusíada e a CESPU), são infraestruturas tecnológicas e de desenvolvimento que estão próximas das empresas. Temos todo um ecossistema empreendedor do concelho. O Município tem tentado ser o facilitador para que esse ecossistema funcione. Quando eu digo é ecossistema é numa perspectiva de termos as escolas, as associações empresariais, os centros tecnológicos, as empresas a funcionar em sintonia.

P - Existe a preocupação de manter a matriz industrial do concelho?
R - Sim, na vertente do concelho não ter vergonha da sua matriz industrial. Esse aspecto para nós também é bastante importante. Assumir que somos um concelho industrial que felizmente está a ultrapassar a imagem dos baixos salários e das condições precárias, para se tornar um território industrial mais moderno, com mais inovação, com mais diferenciação para que possa entrar em outro tipo de mercados.

P - A estratégia tem passado por atrair novas empresas, mas principalmente levar aquelas que já estão instaladas a reinvestirem ainda mais?
R - Sem dúvida. Através da acção do presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão que se tem aproximado das empresas, estas sentem maior conforto para poderem fazer os seus investimentos. Diria que o Município também está a apadrinhar os investimentos das empresas instaladas.

P - Vila Nova de Famalicão tem as empresas que nasceram e em Famalicão, feitas com empresários da terra e tem as multinacionais, essencialmente de capital alemão.
R - Temos uma grande multidisciplinaridade. Aquilo que vai sendo transmitido é que as empresas estão de uma forma geral num momento positivo que tem levado àrealização de investimentos.

P - No início da entrevista dizia-nos do interesse do investimento francês. Há um interesse em também ai diversificar as origens desse mesmo investimento.
R - Nós temos esse objectivo.

P - O investimento alemão tem muito peso?
R- É grande. No caso do investimento francês são para já projectos de menor dimensão, mas que a médio/longo prazo podem aumentar.

P - Recentemente o Município de Famalicão apontou para 99 ME de investimento.
R - Nesta altura já são 104 milhões de euros, no último ano e meio, no âmbito do Regulamento Especifico de Apoio ao Investimento de Interesse Municipal que funciona desde finais de 2015, ou seja, trata-se de incentivos e benefícios fiscais atribuídos a quem faz investimento em Famalicão. São 104 ME de investimento previsto e a criação de cerca 1000 postos de trabalho.

P - Existe alguma meta traçada?
R - Não existe uma meta, mas seguramente ultrapassámos aquelas que seriam as melhores expectativas.

P - Neste volume de investimentos há também pequenos e médios empresários.
R - Estamos a falar de médias e grandes empresas e algumas pequenas empresas que estão também a fazer investimentos.

P - O que é que o Município oferece em concreto?
R - Para além de todo o acompanhamento ao projecto desde que ele é sinalizado até se concretizar nós estamos sempre “por perto”, com um gestor do processo muito bem identificado, aplicamos a redução das taxas de licenciamento até 50 por cento, atribuímos a redução ou isenção do IMI e a redução ou isenção do IMT. Estes são os três benefícios directos que as empresas podem usufruir com base no Regulamento Especifico de Apoio ao Investimento.

P - Mencionava a criação de 1000 postos de trabalho.
R - Apenas no âmbito deste regulamento. Se juntarmos aqueles 104 milhões, aos 150 milhões anunciados pela Continental Mabor e aos 200 milhões de euros de empresas famalicenses que viram os seus projectos aprovados no âmbito do Portugal2020, falamos de valores totais de investimento em Vila Nova de Famalicão na ordem dos 450 milhões de euros.

P - Uma área que faz parte da estratégia do Famalicão Made IN é o apoio ao lançamento das ‘startups’.
R - Essa é uma outra área do Famalicão Made IN, mais vocacionada para a promoção do empreendedorismo e a transformação de ideias em negócio. Temos projectos em todas as áreas desde a agrícola, a social, industrial, tecnológica, alimentar, comércio, serviços. Damos o apoio desde a estruturação da ideia até á constituição da empresa, fazemos o acompanhamento após a constituição e tentamos encontrar o melhor financiamento para as especificidades de cada projecto. Temos dois pólos de incubação: um situado na empresa têxtil Riopele e outro no Globus Parque em Vilarinho. São cerca 15 empresas incubadas. O apoio que damos a esta dezena e meia de empresas, também damos às quase 100 ideias de negócio que estão a ser acompanhadas no Gabinete de Apoio ao Empreendedor. Nós queremos que estas empresas avancem quando houver condições efectivas para o fazer. Queremos que as ideias de negócio sejam de facto sustentáveis, mas queremos também que sejam projectos que possam acrescentar valor ao tecido industrial de Famalicão. Temos trabalhado muito na aproximação entre quem está a criar uma ideia de negócio e quem já está no terreno.

P - A estratégia do Famalicão Made IN é no sentido que as novas empresas de base tecnológica que venham a ser criadas se articulem com o tecido industrial existente?
R - Nós estamos à procura de projectos que possam trazer valor “per si” e enquadrar-se naquilo que já é a industria do concelho de Vila Nova de Famalicão.

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