Pedro Pinheiro Augusto considera que Braga continua refém de interesses que não são os dos cidadãos

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José Paulo Silva

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Pedro Pinheiro Augusto cabeça de lista do partido ‘Nós, Cidadãos!’ à Assembleia Municipal de Braga, considera que a cidade continua refém de interesses que não são os dos cidadãos. Sob o lema ‘Alternativa para Braga’, esta candidatura aposta na eleição de representantes no órgão deliberativo municipal.

P - O ‘Nós, Cidadãos!’ assume-se como herdeiro do ‘Cidadania em Movimento’ (CEM), grupo independente que elegeu dois representantes na Assembleia Municipal de Braga nas eleições autárquicas de 2013. Quais são os objectivos para o dia 1 de Outubro no que diz respeito à Assembleia Municipal de Braga?
R - Gostaria de esclarecer que reivindicamo-nos herdeiros do CEM sem qualquer semelhanças políticas ou partidárias. Somos herdeiros do espírito de cidadania para tentar influenciar o governo da nossa cidade. Para cumprir a lei do jogo democrático, temos de ser partido ou reunir assinaturas, cerca de cinco mil no caso de Braga. Isso constitui uma dificuldade acrescida e assusta qualquer um. Eu sou o único militante de ‘Nós, Cidadãos!’ nas candidaturas à Câmara e Assembleia Municipal de Braga.

P - O ‘Nós, Cidadãos!’ foi uma forma de viabilizar a vossa candidatura independente?
R - O ‘Nós, Cidadãos!’ constituiu-se partido político justamente para fazer o que está a fazer agora: permitir a cidadãos jogar com as mesmas regras dos partidos. Vamos sob o guarda chuva legal do ‘Nós, Cidadãos!’. Esta é uma novidade no panorama político nacional. Eu filiei-me porque era a única forma de fazer política de forma livre.

P - Na vossa lista há alguma linha ideológica que una os candidatos?
R - Temos pessoas das mais variadas tendências. Isso é o resultado prático da cidadania.

P - Entende que as questões partidárias e ideológicas se sobrepõem muito à gestão autárquica?
R - Há maior necessidade de participação dos cidadãos, não só no acto eleitoral de quatro em quatro anos, mas ao longo de todo o mandato. Muitos autarcas têm uma máquina partidária por trás. Em Braga, assistimos a uma situação em que alguém não tem claramente essa máquina por trás e é um candidato muito manco. Outro candidato tem a máquina partidária e olhemos para os orçamentos de campanha de um e de outro. É assustadora a diferença! Nós fazemos a figura do pobre.

P - Desviei-o um pouco da pergunta sobre os objectivos eleitorais...
R - Somos muito realistas. Achamos que é perfeitamente exequível eu ser eleito. E talvez mais um ou dois deputados municipais. Eu acredito que este é um processo contínuo, que esta candidatura vai chamar a nós pessoas interessantes e interessadas, que as nossas ideias ficarão.

P - Que tipo de actuação pretende ter na Assembleia Municipal, tendo em consideração que este é um órgão aparentemente sem grande ligação aos cidadãos?
R - É um órgão deliberativo muito importante. O que acaba por acontecer muitas vezes é que quem está deputado municipal está constrangido e vai atrás de directórios que não representam a sua vontade individual. Connosco isso não irá acontecer. Seremos muito diferentes dos nossos adversários.

P - Não vão estar dependentes de orientações do partido ‘Nós, Cidadãos!’?
R - Eu sou o único militante. Não há nenhuma cartilha ou directório.

P - Não terá qualquer alinhamento com os partidos que estejam no poder ou na oposição?
R - Vamos debater as ideias pelos seus méritos ou deméritos, não pela sua proveniência.

P - Como vai ser a vossa campanha eleitoral?
R - Temos estado a contactar com instituições da cidade de Braga. Tem sido uma experiência maravilhosa. Temos de fazer diferente. Não somos profissionais da política, não temos dinheiro para grandes fanfarras. Achamos muito importante o disseminar desta ideia de democracia.

P -Tem expresso a ideia de que Braga está capturada por interesses que não são os dos cidadãos...
R - Pior do que isso. Há anos que Braga está a ficar uma cidade anacrónica. Isso é o pior que pode existir. Numa viagem de final de curso pela Europa, no fim dos anos 90, comecei a perceber que Braga estava a apostar numa ideia que toda a gente já tinha tido há 50 anos. O que é que mudou? Não mudou grande coisa. A grande crítica que se pode fazer à governação de Braga desde o 25 de Abril de 1974 é que uma autêntica navegação à vista. As coisas vão sendo feitas de acordo com a vontade do momento.

P - A substituição da governação socialista, há quatro anos, não mudou esse estado de coisas?
R - Infelizmente, não. Houve uma grande promessa de mudança que não se concretizou. Não vou discutir se foi falhanço ou inconseguimento, mas a verdade é que não vimos grandes alterações. A demonstração disso é o recente licenciamento de superfícies comerciais em pleno centro urbano, em espaços que poderiam ser verdes, a par de uma inércia em assuntos relevantes e com influência na nossa vida. O facto de eu ser obrigado a ter automóvel para poder trabalhar custa-me muito dinheiro.

P - Está a entrar numa questão cara à vossa candidatura: a mobilidade. Esta é uma bandeira também assumida pela actual gestão camarária. Considera que não foram dados passos significativos nos últimos quatro anos?
R - Não. Prometeu-se uma série de coisas, tivemos projectos de Bus Rapid Transit (BRT) muito mal explicados e que não resistem a uma análise técnica. Aquilo que se falou era impraticável. Temos uma tendência em Braga para grandes investimentos. Há todo um trabalho ao nível dos transportes urbanos que ficou por fazer. Os transportes urbanos em Braga são muito lentos, não têm qualquer tipo de horário para além da hora de partida, não têm transbordos...

P - A questão da mobilidade em Braga não passa tanto por projectos mais arrojados como o BRT mas pela melhor gestão dos transportes públicos?
R - Exactamente. Temos todas as ferramentas necessárias. Por que é que não temos mais linhas frequentes entre o centro da cidade e as periferias, criando pontos de transbordo que me permitam ir da cidade para qualquer ponto do concelho? Isso é muito difícil de conseguir?

P - Não obrigaria a um maior investimento na frota?
R - Não. De maneira nenhuma.

P - A mobilidade entronca no ambiente, outra das seis prioridades do pro-grama ‘Nós, Cidadãos!’,que propõe medidas como um verdadeiro parque urbano e a remunicipalização da Agere...
P - E tudo isso tem a ver com economia. Da mesma maneira que a melhoria da mobilidade assegura mais dinheiro para o cidadão, imagine os lucros que a Agere tem. A Agere lucra com a sede dos bracarenses.

P - Mas a remunicipalização da empresa não obrigaria a um grande esforço financeiro do Município?
R - É óbvio que para comprar a parte privada da Agere a Câmara Municipal precisa de ter dinheiro, mas a Agere dá mais de cinco milhões de euros de lucro por ano. Seria uma compra que se pagaria a si própria. A nível ambiental, temos de pensar a cidade de Braga de acordo com as alterações climáticas que estão em curso. Essas alterações têm de começar hoje, não podem ser feitas daqui a 20 anos.

P - Tem uma imagem da cidade que não coincide com...
R - Com a propaganda.

P - Há algum mito sobre a cidade de Braga?
R - É óbvio. Atenção: eu sou bracarense e amo muito a minha cidade. Não tenho ideias de ir morar para outro sítio. O que mais quero é ter uma cidade melhor, com menos poluição e menos sinistralidade, mais económica para viver. Há quantos anos se fala de parques na cidade? Onde é que eles estão?

P - Como é que os cidadãos podem influenciar o governo da cidade?
R - Com o voto e com a participação cívica. O poder popular não se esgota nas eleições. Se os bracarenses querem ter uma vida melhor - e não há porque não a possam ter -, têm de tomar o seu destino nas mãos, que começa com o voto e continua na participação cívica durante os quatro anos seguintes. Braga já foi melhor do que é. É possível recuperar o nosso ambiente e o nosso poder de compra.

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