João Duque: ‘Católica’ de Braga abre-se à informática e Gestão

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José Paulo Silva

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João Duque, presidente do Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa, afirma a importância da Filosofia e das Humanidades num quadro de oferta de formação superior muito centrada na solução imediata de emprego. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, este teólogo aponta as áreas de abertura da ‘Católica’ em Braga, sem desistir do objectivo de voltar a ter cá o melhor curso de Filosofia do país.

P - A Universidade Católica Portuguesa (UCP) está a celebrar 50 anos. É uma instituição que tem a sua génese em Braga a partir da Faculdade de Filosofia criada há 70 anos pelos Jesuítas. Foi a primeira instituição de ensino superior no Minho, facto que muitas pessoas desconhecem
R - Há 50 anos atrás, a UCP foi criada em Braga. No dia 13 de Outubro celebrou-se o documento da sua criação a partir de um estabelecimento já existente. A UCP era um sonho muito forte da Conferência Episcopal Portuguesa, nomeadamente do cardeal Cerejeira. A preferência então de Salazar era a recuperação da Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, mas a Conferência Episcopal preferiu a criação de uma universidade independente das universidades do Estado. Juntou-se a isso a existência já então de um estabelecimento de ensino superior em Braga, a Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus, já muito pujante então. Reconhecendo tudo isso, a Santa Sé recomendou que para a criação da UCP se partisse dessa faculdade, estendo-se logo no ano seguinte a Lisboa, criando lá a sede.

P - Podemos dizer que, há 50 anos, a Igreja conseguiu contornar alguma resistência política que preferia a recuperação da Faculdade de Teologia em Coimbra?
R - É conhecida a amizade entre o cardeal Cerejeira e Salazar, mas aí descordaram. A sugestão que veio de Roma de associar a UCP aos jesuítas deu alguma consistência ao projecto, mas chegou a ir à Conferência Episcopal o projecto do Governo de reabilitação da Faculdade de Teologia de Coimbra. A proposta foi recusada. Apesar da situação, queria-se uma universidade independente do Estado.

P - Passados 50 anos, por que é muitas pessoas e instituição esquecem o facto de ter sido a UCP a fundadora do ensino superior no Minho?
R - Isso tem a ver com a evolução posterior, o que é compreensível. Nem sequer levamos isso a mal. Há 50 anos, quando só havia ensino superior no Porto, Coimbra e Lisboa, a UCP surgiu um pouco fora do sítio. Com o movimento das novas universidades portuguesas criou-se a Universidade do Minho, que é uma universidade maior e completa. Como a presença da UCP tenha sido só por uma área específica que depois entrou em crise, o alargamento da UCP com a criação da Faculdade de Ciências Sociais passou mais despercebida. O crescimento da Universidade do Minho também é bom para nós, porque atrai alunos para cá.

P - A criação da Universidade do Minho veio ajudar a mudar a estratégia da UCP em Braga?
R - A região do Minho tem uma população significativa. A expansão da UCP para outros cursos aconteceria naturalmente. Por sinal, cursos que nós introduzimos como Ciências da Comunicação e Psicologia até beneficiam da presença da Universidade do Minho, porque são cursos muito bons que atraem alunos com elevadas qualificações. Isso torna Braga um bom centro para o estudo da Psicologia e da Comunicação do qual nós fazemos também parte.

P - A concorrência nessas áreas é saudável?
R - Sim. Nem chega a ser concorrência propriamente. Este ano, por exemplo, ocupámos todas as vagas em Ciências de Comunicação e Psicologia.

P - O que acontece é que há uma duplicação da oferta formativa. Isso poderia ter sido evitado?
R - Há áreas que não duplicamos: Serviço Social e Turismo, a Teologia é exclusividade nossa. A Universidade do Minho nunca será uma universidade completa enquanto não tiver Teologia, mas isso é uma questão à parte (risos). Numa perspectiva histórica, nós desejámos que, quando foi criada a Universidade do Minho, uma altura muito forte para a Faculdade de Filosofia de Braga, com o melhor curso de Filosofia do país e um dos melhores de Humanidades, esse investimento feito pelos Jesuítas tivesse continuidade articulado com a Universidade do Minho. Em acordo com o Estado, essas formações continuariam a ser dadas pela Faculdade de Filosofia, articulando-se as duas universidades para o bem da população. A Universidade do Minho também não conseguiu implementar suficientemente bem as áreas da Filosofia e das Humanidades. Apesar da qualidade significativa na Universidade do Minho e na UCP, não são cursos pujantes como eram os da Faculdade de Filosofia. Chegámos a ter 1 400 alunos nesses dois cursos, o que dava, actualmente, para as universidades.

P -  Porquê a perda de influência na sociedade da Filosofia e das Humanidades. É um caso português?
R - Não. Noutros países essa fase já foi ou está a ser bastante superada. Pode haver uma certa perspectiva de novo riquismo nosso, de um certo entusiasmo com a eficácia de alguns empregos e não avaliarmos o que significa, do ponto de vista de consistência cultural e desenvolvimento económico, esta base. Uma preocupação exagerada com a questão económica e de solução imediata de emprego não nos dá um certo descanso para avaliarmos a força destas áreas. Isso parece-me altamente preocupante.

P - Há uma espécie de confronto entre a ética e a técnica?
R - Que não precisa de ser confronto. Há muitos países com grande desenvolvimento tecnológico que desenvolvem muito a formação filosófica e humanística. Um país sem filósofos e sem humanistas é um país pobre, mesmo que tenha dinheiro. Aliás, dificilmente vai conseguir ter muito dinheiro.

P - A UCP em Braga não perdeu também com a quebra de importância dessas disciplinas no ensino público secundário?
R - Sem dúvida. Não podemos dizer, há 20 anos atrás, quando tínhamos 1 400 alunos, que houvesse, só por si, muito maior interesse pela Filosofia e pelas Humanidades. Havia mais emprego nessas áreas, isso é claro.

P - A UCP desistiu de ter o melhor curso de Filosofia em Portugal?
R - Não necessariamente. As coisas não se fazem sem gente e sem dinheiro. Tem de haver contexto para isso, mas é uma das consciências da UCP que tem, mesmo financeiramente, sustentado a área de Filosofia. Em Braga, optámos por dar bolsas aos alunos de Filosofia para motivar o seu estudo, o que faz com que a frequência fique mais barata do que nas universidades públicas. Do ponto de vista do negócio estrito, fecharíamos Filosofia. Por consideração histórica e de princípio, consideramos a Filosofia uma opção importante.

P - Mas continua a manter o contributo da Companhia de Jesus que deram o prestígio ao curso de Filosofia?
R - Sim. Evidentemente que tivemos de nos adequar à redução do número, mas mantemos e melhor biblioteca de Filosofia do país e uma das melhores da Península Ibérica. Temos uma das melhores, se não mesmo a melhor revista portuguesa de Filosofia, que continua a contar com o contributo da Companhia de Jesus.

P - A UCP não deveria fazer algum marketing a favor deste curso?
R - Temos de anunciar todos os nossos cursos. É muito difícil convencer alunos do Ensino Secundário a estudar Filosofia.

P - Pode apresentar casos em que a formação filosófica ajuda pessoas a serem mais bem sucedidas no mercado de trabalho?
R - Isso está comprovado. Evidentemente que num emprego demasiado técnico ou em que se limita a fazer o que lhe mandam, não é preciso muita Filosofia. Agora, num mercado de trabalho exigente, que exige criatividade e inventividade, capacidade de leitura mais abrangente, a Filosofia faz falta. Grandes empresas procuram alguém que tenha essa formação de base e que podem aprender a formação técnica muito facilmente. Há muitos casos.

P - Nestes 50 anos da UCP, que momentos que consideram marcantes na evolução da instituição?
R - Inicialmente, foi significativa a ideia de uma universidade autónoma. A ideia originária da UCP era demasiado eclesiástica, muito concentrada na Teologia, Filosofia e Direito Canónico. Logo depois, a introdução do curso de Gestão foi algo inovador no país. É preciso perceber que, no contexto do salazarismo, uma universidade não estatal nessa área é significativa. Em 1974, na fase quente do pós-25 de Abril, aconteceu uma grande crise na universidade estatal e muitos dos melhores professores, sobretudo de Direito, migraram para a UCP. Foi um momento de crescimento da UCP, tornando-a então numa das melhores universidades do país. Hoje continuamos a ser uma universidade relativamente pequena e apostamos sobretudo em nichos em que nos consideramos bons.

P - E, de repente, aparecem em Portugal um conjunto de novas universidades. Ainda hoje surgem dúvidas sobre cursos que apareceram.
R - Houve uma purificação nos últimos com a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, bem como a própria crise do ensino superior, que obrigou o sistema a ser mais comedido. Houve uma dispersão do ensino superior imensa.

P - Que não foi positiva?
R - Num momento as universidades estatais não respondiam às necessidades. Esse movimento alargou a hipótese de acesso ao ensino superior por todo o país. Provavalmente, não foi feito tudo com cálculo a pensar na evolução demográfica do país. Ao entrar nesta abertura quase descontrolada, viemos a sofrer consequências.

P - O discurso político diz que é preciso dar ainda passos no sentido de uma maiore massificação do ensino superior para cumprir metas europeias.
R - Isso é diferente. Penso que neste momento teremos capacidade em vagas para acolher todos os alunos que quisessem entrar no ensino superior. Do ponto de vista da capacidade de resposta, penso que estamos em condições de a dar. A percentagem de acesso ao ensino superior não está tão mal assim. No conjunto da população estamos mal, mas há um passado que nos marca. O que o Conselho de Reitores das Universidades Portugueses tem vindo a defender é uma mais clara distinção entre ensino universitário e ensino politécnico para que os alunos saibam o que os esperam e saibam fazer as suas escolhas.

P - Não é defensor da tese de aproximação do ensino politécnico ao ensino universitário?
R - Não vejo nenhum benefício nisso. Então transformem alguns institutos politécnicos em universidades. Os países mais organizados quanto a isso, têm um claro distinção dos sistemas. Também para serem sinceros com os alunos.

P - Mas o ensino politécnico também não é tão valorizado em Portugal...
R - Esse é que foi o problema.

P - De que forma é que a UCP teve a concorrência das novas universidades?
R - O surgimento de outras universidades ocupou uma margem de alunos. Não sofreu muito. Houve uma quebra pelos anos 2011 e 2012 e recuperou quase de imediato, devido à qualidade que foi afirmando. Em algumas áreas, a UCP estava claramente implantada. Com todo o respeito, a UCP não se considera no grupo das universidades privadas.

P - A oferta educativa do Centro Regional de Braga da UCP está consolidada ou há em estudo outras propostas?
R - Ao nível das licenciaturas de formação de base mantemos a oferta. A área de Estudos Portugueses e Espanhóis passará em breve a Estudos Portugueses e Comparados, tendo em conta que o Espanhol acabou por não pegar como se esperava no nosso ensino básico e secundário. As áreas de abertura são sempre áreas próximas: Ciências Humanas e Sociais. Estamos a trabalhar num projecto que ganhará corpo em Braga na área da Informática, uma vez que é uma área em que a empregabilidade ainda é necessária.

P - Mesmo com a ‘excelência’ que existe na Universidade do Minho nesta área?
R - Ainda bem. Braga é uma referência na Informática e todos lucramos com isso. A nossa perspectiva é, para além da formação em Informática dura, ter um enfoque mais social sobre as perspectivas actuais da Informática e outras. Este é um projecto ainda embrionário que estamos a adesenvolver a partir da única área de tecnologias que temos, inserida nas Ciências Sociais por estar muito direccionada para a Educação.

P - É um projecto para concretizar quando?
R - A médio prazo. Temos de ter notícias claras dentro de dois, três anos. Há um desenvolvimento forte de aproximação à área de Gestão da ‘Católica’ do Porto, onde cada ano que passa ficam mais alunos de fora. Tendo aqui tão perto uma área tão excelente dentro da UCP, a nossa intenção é estendê-la a Braga. Estamos a fazer esse trajecto através da formação de executivos para as empresas da região, o que está a correr bastante bem. O curso geral de gestão já vai na terceira edição e tem tido público da região.

P - A extensão da Gestão a Braga poderá acontecer quando?
R - Depende de muitos factores, desde logo a Agência de Avaliação e Acreditação. Pode ser um ano, podem ser dois. Noutras áreas, iniciámos o Turismo há relativamente pouco tempo. É uma área de moda mas que, no contexto universitário, tem de se libertar progressivamente do seu perfil mais politécnico e ter uma afirmação universitária própria. Penso que poderá ser a vir um curso de excelência em pouco tempo.

P - O que levou à junção das faculdades de Filosofia e de Ciências Sociais?
R - Por serem muito próximas. A opção pela criação de uma terceira faculdade em Braga, a de Ciências Sociais, resultou do facto de a maior parte das pessoas envolvidas serem desta área, mas o desenvolvimento da Faculdade de Filosofia nas áreas da Psicologia e das Ciências da Comunicação aproximou-as.

P - Isso não vai fazer perder alguma identidade da Faculdade de Filosofia de Braga?
R - A nossa perspectiva é que, com as formações temos, é mais benéfica a marca ‘Católica’ do que Faculdade de Filosofia. Mantemos a nossa fidelidade e aposta na Filosofia como respeito pela nossa História, mas as novas formações em Turismo e Psicologia até poderiam padecer por apenas numa Faculdade de Filosofia. O que temos é formações da UCP articuladas na Faculdade de Teologia, que é muito específica, e na de Filosofia e Ciências Sociais.

P - Um projecto mais global da UCP é o ensino de Medicina...
R - É um projecto claramente situado em Lisboa. Pode ter algumas ramificações a outros locais. O primeiro passo é fazer uma proposta de alta qualidade que não tenha possibilidade de ser reprovada pela Agência de Avaliação e Acreditação. Estando garantida essa qualidade, há algum contexto político a resolver, porque é a primeira universidade não estatal a ter um curso de Medicina praticamente internacionalizado.

P - A generalidade das universidades portugueses aposta na captação de estudantes estrangeiros. A ‘Católica’ de Braga também olha para esse público mais global?
R - Sim. Nós temos perfis diferentes de acordo com os sítios onde estamos implantados. Há cursos em Lisboa com mais de 50% de alunos estrangeiros. Em Braga, nós temos investido sobretudo em alunos de países de expressão portuguesa. É um apoio que damos sobretudo a alunos africanos. A ligação ao Brasil está também a expandir-se. Para já, ainda não decidimos completamente dar o salto para a leccionação em Inglês para atrair alunos de outros países.

P - Ainda se mantém a ideia de que a UCP é uma universidade só para alunos de famílias com algum poder económico?
R - Nalgumas áreas é um ensino caro. É um ensino caro na comparação portugue. sa. Braga é um caso bastante específico devido à tradição da Faculdade de Filosofia e da Companhia de Jesus. Nunca foi um curso para algumas elites económicas. Sempre fizemos um exercício extremo de conseguir manter as propinas no mínimo exigido para manter a UCP a funcionar. Temos muitos alunos com bolsas de estudo do Estado. Conseguimos bolsas e planos de pagamento para abarcar todas as situações. Temos neste momento em Braga uma propina que equivale ao triplo da universidade estatal. Nós temos que aguentar com um financiamento
à cabeça, via aluno ou via bolsa, na ordem dos 3 500 euros, quando qualquer universidade estatal calcula no mínimo 4 500 euros por ano. Não há aqui parcerias público-privadas.

P - A UCP sentiu o período de intervenção da troika em Portugal?
R - E de que maneira. No conjunto da UCP, o Centro Regional de Braga terá sido o mais afectado. Lisboa e Porto, de uma forma ou de outra, acolhem alunos de uma classe social economicamente mais abastecida. Houve alunos adultos que perderam o emprego, muitos pais de alunos de alunos que perderam o emprego nessa ocasião. Ficaram a meio do curso sem possibilidade de o pagar, fazendo planos de pagamento que estão a cumprir. Estamos a notar já alguma recuperação, até no número de inscrições. Há menos dificuldade de vir para UCP pela questão económica.

P - Em termos económicos, a Igreja Católica é um suporte?
R - Na UCP somos absolutamente autónomos e autosustentáveis. Não recorremos à Conferência Episcopal Portuguesa para cobrir nada na UCP.

P - A ideia de que muitas esmolas que a Igreja recebe vão para a UCP não é verdadeira?
R - Um dia faz-se um peditório para a UCP. Esse peditório é canalisado exclusivamente para a Faculdade de Teologia, que é a mais deficitária, não para os cursos ricos (risos). Esses, pelo contrário, ajudam também a pagar o curso de Teologia. Cada Centro Regional tem também autonomia financeira. Temos estado mais ou menos equilibrados.

P - Em termos de instalações, não se perspectiva que o Centro Regional de Braga venha a expandir-se nos próximos tempos, depois da construção do Campus da Rua de Camões?
R - As nossas necessidades estão perfeitamente cobertas. No edifício dos Jesuítas e na Rua de Camões temos instalações suficientes para os nossos cerca de mil alunos. Não prevemos no estado actual do ensino superior que venhamos a crescer muito mais. Temos sempre o recurso do edifício do antigo Seminário da Rua de S. Margarida, que só utilizamos para a biblioteca da Faculdade de Teologia. Poderá ser de novo utilizada caso as coisas enveredem por uma expansão maior.

P - A biblioteca da Faculdade de Filosofia de Braga está suficientemente aberta ao público?
R - Na prática, está. Pode não ser tão conhecida assim mas não é vedada a entrada a quem lá for. Hoje em dia a divulgação é muito mais ‘on line’. Em breve deveremos ter um ‘site’ mais decente e com mais impacto na sociedade. Estamos a apostar na marca ‘Católica’. Estamos numa relação muito estreita com o concelho de Braga. A maior parte dos nossos alunos são de cá. Deveríamos ter mais iniciativas no espaço público, mas o tempo não chega para tudo.

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