Eurodeputado José Manuel Fernandes aponta incompetência na coordenação da Protecção Civil

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José Paulo Silva

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O eurodeputado do PSD, José Manuel Fernandes, entende que, ao nível do comando e da coordenação da Protecção Civil, “a grande maioria das pessoas são incompetentes”. Na última edição do programa da Rádio Antena Minho ‘Da Europa para o Mundo’, em que se debateram os últimos fogos florestais, o eleito português em Estrasburgo considerou que essas pessoas deveriam reconhecer “elas próprias a sua incompetência”.

“Mais de cem mortos em quatro meses não se pode passar num país da União Europeia”, declarou o eurodeputado, criticando as autoridades portuguesas por, no fatídico 15 de Outubro, “apenas terem activado o mecanismo europeu de protecção civil quando já não há nada a fazer”.
Segundo José Manuel Fernandes, “sabia-se que ia ser um dia muito complicado e não se activaram os meios”, pelo que conclui por “um falhanço tremendo do comando no mobilização dos meios”.

No programa dirigido pelo jornalista Paulo Monteiro e que teve como convidado Hercílio Campos, ex-comandante distrital de Braga da Protecção Civil, José Manuel Fernandes defendeu que “tem de se evidenciar de quem são as responsabilidades e verificar as fragilidades”, já que, o balanço dos incêndios registados no fim-de-semana de 14 e 15 de Outubro “é uma coisa impensável”.
O eurodeputado confessou que não consegue explicar aos seus colegas do Parlamento Europeu o que aconteceu em Portugal em matéria de fogos florestais.

“As alterações climáticas são para todos e Portugal tem tanta área ardida como o resto da União Europeia”, atestou o eurodeputado.
No rescaldo dos incêndios que fustigaram a floresta portuguesa no Verão e no mês de Outubro, o eurodeputado retém a convicção de que não há crime organizado.
José Manuel Fernandes não alinha também na ideia de que culpa dos fogos florestais “é sempre do eucalipto”.

Sublinhou que “o pinhal de Leiria ardeu e não tinha eucalipto”, lembrando que a exploração desta espécie “é o único rendimento para pequenos produtores que a planta nas suas bouças”.
Declarou por isso que “o eucalipto não pode ser a desculpa para a bagunça que houve na gestão dos meios, para a intolerância e para a falta de previsão”.
José Manuel Fernandes denunciou que tenham sido retirados meios aéreos de combate aos fogos numa “lógica burocrática”. em que “o calendário é que manda”.

Distrito de Braga tem bombeiros de excelência

Como observador atento da situação vivida no dia 15 de Outubro no distrito de Braga no que diz respeito ao combate a inúmeros fogos florestais, Hercílio Campos constata que “o sistema esteve quase a entrar em ruptura, o que se via pela quase ausência de mobilização de meios”.
O homem que dirigiu durante vários anos o Comando Distrital de Operações e Socorro observou que “quando há ruptura de recursos há que recuar e repensar, alterar a estratégia e dar instruções para o terreno”.

Hercílio Campos referiu que, apesar de tudo, “o distrito dispõe de um conjunto de meios ao nível dos corpos de bombeiros de excelência” e com “qualidade acima da média”.
Lamentando que “o nível nacional” da Protecção Civil nunca tenha conseguido “pegar nos bons exemplos que pelo país fora se foram desenvolvendo”, Hercílio Campos alerta que “não é possível termos um comandante que venha de fora da estrutura e sem formação”.

O ex-comandante lamentou ter visto já alguém “num posto de comando na desportiva quando já tinha morrido gente”, situação que “transmite uma ideia de irresponsabilidade que não é possível aceitar”.
No programa ‘Da Europa para o Minho’, Hercílio Campos defendeu o regresso do Serviço Nacional de Bombeiros, autónomo do Serviço Nacional de Protecção Civil, reforma acompanhado de “um regimento de militares que sirva de intervenção para a grande catástrofe”, e que não ostracize os actuais operacionais. “Se ostracizarem os operacionais poderão ficar sozinhos. Esse risco está latente”, alertou Hercílio Campos.

Prevenção de incêndios florestais está por fazer há quarenta anos

“A prevenção florestal está por fazer há 40 anos”, afirmou o ex-comandante distrital de Braga da Protecção Civil, Hercílio Campos, no último programa ‘Da Europa para o Mundo’, da Rádio Antena Minho.
Convidado para analisar as causas e consequências da vaga de incêndios florestais que tem assolado Portugal, Hercílio Campos alertou que “temos de passar por um período de dois, três anos em que não podemos aligeirar o combate e temos de começar a investir fortemente na prevenção”.

Segundo o antigo operacional da Protecção Civil é urgente “investir fortemente na área da prevenção mantendo o combate”, sob pena de “corrermos o risco de perder toda a floresta”.
Insistindo na ideia de que “há 40 anos não é feito praticamente nada na floresta”, o ex-comandante distrital atribuiu a um “conjunto de factores que se foram acumulando” a causa de um número anormal de fogos florestais em Portugal com consequências muito gravosas, nomeadamente em perdas de vidas humanas.

“O acumular de combustível, o desordenamento da floresta e as monoculturas levam a que o combate aos incêndios seja complicado”, considerou Hercílio Campos, sublinhando que as operações de combate são “o fim da linha”, sofrendo sempre “com aquilo que não foi feito por todos os outros intervenientes”.
A somar ao “défice de prevenção estrutural e conjuntural muito grande”, Hercílio Campos entende que a mudança operada este ano ao nível dos protagonistas ao nível nacional e distrital da Protecção Civil “também teve os seus custos”.

Questionado sobre o que pode justificar as mais de 500 ignições registadas no fim-de-semana de 14 e 15 de Outubro, o homem que coordenou a Protecção Civil no distrito de Braga até Janeiro deste ano e que já comandou os Bombeiros Voluntários de Esposende respondeu que nunca teve nada que o levasse “a pensar em crime organizado”, sendo certo que “com um número tão grande de ignições algo está a falhar”. “A principal responsabilidade de tudo isto é política. É responsabilidade política recente e de longo prazo”, atestou Hercílio Campos, apontando o dedo a “todos os ministérios da agricultura com responsabilidades na floresta”.

A recém criada Secretaria de Estado da Protecção Civil, uma das medidas tomadas pelo actual governo como resposta aos danos pessoais e humanos sem precedentes que resultaram dos fogos florestais deste ano, é vista com alguma reserva pelo anterior comandante distrital.
“Não me parece que seja por aí. Não é por haver uma Secretaria de Estado específica que as coisas melhorarão”, afirmou no programa ‘Da Europa para o Minho’, lamentando que o sistema de Protecção Civil tenha entrado em “colapso” no fim-de-semana negro de 14 e 15 de Outubro.

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