Os lenços dos namorados perdem-se na memória dos tempos mas são sempre reavivados por alturas de S. Valentim e ainda hoje continuam bem na moda, embora a tradição já não seja exactamente o que era.
'A tradição conta-nos que a rapariga se dedicava a bordar o lenço nas horas vagas, depois do trabalho do campo, para o oferecer ao rapaz que pretendia. Se ele, no domingo, levasse esse lenço no bolso com a ponta de fora ou atado ao pescoço, é porque aceitava o namoro. Caso não estivesse interessado na rapariga, devolveria esse lenço', explicou à Lusa a bordadeira Olívia Costa.
'Hoje em dia, as coisas já não são bem assim, mas os lenços de namorados continuam a ter muita saída. Ainda agora veio cá um homem, recém-casado, que comprou o lenço mais caro que cá havia para a mulher', acrescentou.
Agora, como referiu Lurdes Freixo, outra bordadeira, os lenços oferecem-se não apenas aos namorados, mas a todas as pessoas queridas e especiais.
'Eu mesma tenho aqui um lenço que fiz para oferecer ao meu filho', sublinhou.
Familiarizadas desde crianças com a agulha e o dedal, Olívia Costa e Lurdes Freixo, actualmente septuagenárias, montaram em Viana do Castelo uma espécie de oficina de lenços dos namorados, onde passam uma boa parte dos seus dias a bordar e a ensinar todos os que estiverem interessados em aprender esta arte.
Garantem que dedicação, gosto e, sobretudo, muita paciência são os únicos 'requisitos' necessários, para logo acrescentarem, com algum humor, que é preciso também ter algum 'arcaboiço' para suportar as picadelas que volta e meia acontecem.
Como explicam, os lenços dos namorados dividem-se em dois grupos: os 'parolos', que misturam cores e mais cores de uma forma perfeitamente aleatório, 'ao gosto das raparigas do campo', e os
'finos', confeccionados em linho e onde apenas reina o vermelho.
Um exemplar pode demorar um mês a bordar e o seu custo chega a atingir os 300 euros.
'Mas a partir dos 10 euros já se compra um lencinho muito bonito', ressalva Olívia Costa.
Segundo Francisco Sampaio, histórico presidente da agora extinta Região de Turismo do Alto Minho, presume-se que a origem dos lenços de namorados esteja nos lenços das senhoras do século XVII, adaptados, mais tarde, pelas mulheres do povo que lhes incutiram um aspecto visual mais popular e característico da vivência em comunidade.
No início, eram lenços quadrados feitos de linho e algodão e que faziam parte integrante do traje feminino, sendo a sua função essencialmente decorativa, mas, mais tarde, adquiriram uma componente mais fantasiosa e dirigida à conquista da pessoa amada.
Bordados a ponto de cruz, obrigando a bordadeira a passar serões na sua confecção durante muitas semanas ou até meses, os lenços têm temáticas muito variadas, como símbolos religiosos (custódias e cruzes), vindimas, emigração, amor (corações, chaves, cravos e monogramas) e quadras.
'Abre-te lenço e amostra / Catro ramos feloridos / Que no meio encontrarás / Nossos corações unidos' ou 'Meu Zé bai pró Brasil / Eu também bou no bapor / Guardado no coração / Daquele que é meu amor' são algumas das quadras bordadas nos lenços e utilizadas pelas mulheres para transmitirem a sua afeição e amor por determinado homem.
'Os erros ortográficos eram normais, porque todos aqueles versos eram escritos por raparigas do campo, com poucos ou nenhuns estudos. E ainda hoje os lenços mais procurados são os que contêm esses erros, porque isso lhes dá uma genuinidade muito especial', explicou Olívia Costa, antiga professora do ensino primário.
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