Na passagem do 18.º aniversário do Tin.bra — Teatro Infantil de Braga, o pulsar do grupo é dado em enrevista ao Correio do Minho pela presidente da Direcção. Maria Torcato Baptista revela que está em vias de avançar a criação de um grupo de actores de cariz profissional e confessa o sonho de receber um espaço no Mercado Cultural do Carandá, criando sinergias com o bailado e a música.
No Tin.bra, teatro infantil é o cerne, contando-se em 130 as crianças que passaram no ano 2008 pelo Tin-Bra nas suas diversas propostas formativas.
A dirigente justifica o avanço para a criação de um grupo de actores profissionais, para corresponder às solicitações de espectáculos em estabelecimentos de ensino, que seriam impossíveis de satisfazer dispondo apenas de actores em idade escolar.
Ainda assim, a dirigente mantém que o propósito é prosseguir a formação de jovens actores, não só pela componente artística. A formação social e cívica de quem passa em criança por uma escola de criança nota-se mais tarde, pela positiva, quando em sala de aula, sustenta, vincando as vantagens do teatro educacional, que desenvolve “capacidades sociais e cognitivas a todos os níveis”.
A nossa interlocutora defende mesmo: “Era muito bom que os pais percebessem que investir no teatro, desde pequenino, é como investir no inglês ou noutra área qualquer, que vai ajudar na construção da cidadania desse jovem. Se pudéssemos ir para um laboratório e comparar as crianças que fazem teatro como alunos, como pessoas, como filhos, como amigos, eles têm desenvolvimento de competências relacionais, pessoais e sociais muito maiores do que qualquer outra criança que não passa por esta linguagem”.
É pelas actividades centrais do Tin.bra, no âmbito da formação que presta a crianças que começamos a entrevista.
É uma questão que quem quiser pode satisfazer de modo mais completo na internet em http://tinbra.blogs.sapo.pt, e onde pode ler-se que as oficinas começaram em 1 de Outubro, decorrendo até Junho.
Correio do Minho — As 'oficinas' e o 'curso livre' são coisas diferentes?
Maria Torcato Baptista — As oficinas são para suporte desta associação. Funcionamos há 18 anos como grupo de teatro infantil. Adoptamos esta sigla, pela qual temos muito afecto. Mas foi assim que o Tin.bra — Teatro Infantil de Braga — nasceu, só com oficinas de teatro.
À medida que fomos caminhando, estes jovens foram crescendo, ligados a nós. Deixamos de ser só teatro infantil, sendo que continuamos a ter muitas oficinas para crianças e direccionadas para crianças.
Foi em 1991 que nasceu o Tin.Bra?
Foi em 1991, como associação cultural. Entretanto os jovens vão crescendo e vão formando oficinas já com três, quanto e cinco anos de experiência. O Tin.Bra não quer para já, não está nas nossas intenções, ser uma escola de teatro. Queremos ser um espaço onde se trabalha teatro educacional, que é teatro para todas as crianças que queiram investir no teatro como uma ferramenta, com um instrumento de cidadania que lhe ajude a desenvolver competências de expressão, de interacção, de improvisação. Que lhe desenvolve capacidades cognitivas, emocionais, relacionais, a todos os níveis.
Era muito bom que os pais percebessem que investir no teatro, desde pequenino, é como investir no inglês ou noutra área qualquer, que vai ajudar na construção da cidadania desse jovem. Se pudéssemos ir para um laboratório e comparar as crianças que fazem teatro como alunos, como pessoas, como filhos, como amigos, eles têm desenvolvimento de competências relacionais, pessoais e sociais muito maiores do que qualquer outra criança que não passa por esta linguagem.
Eles sabem cimentar relações, resolver problemas em grupo, trabalhar em equipa desenvolver capacidades de solidariedade, de trabalho cooperativo, coisas que outras crianças que fazem outros percursos não têm possibilidade de desenvolver. E isso é notório.
Mesmo os professores, quando recebem na sala de aula crianças que andam pelo teatro, sentem de imediato a diferença, pela postura, pela atitude, pelo modo como apresentam o trabalho, pelo modo como se relacionam com os outros, pelo modo como sabem trabalhar e formar equipas.
O vosso trabalho tem sido reconhecido, com visibilidade até na televisão...
Sim. Este ano, o Tin.Bra foi a associação que a RTP escolheu para comemorar o Dia Mundial do Teatro. Foi um privilégio, que se deve ao trabalho que estamos a desenvolver no terreno.
Nós, de há três ou quatro anos para cá, entendemos que havia espaço para alargar o nosso âmbito de acção. Já não falamos apenas a linguagem das oficinas mas temos a funcionar em simultâneo várias valências, todas relacionadas com o palco. Espectáculo, formação, em várias linguagens de palco, férias criativas — que este ano foi um sucesso durante o mês de Julho.
As crianças , nas férias criativas, para além de contactarem com os recursos que a cidade oferece, os museus, a
quinta pedagógica, as bibliotecas, a piscina, no Mercado Cultural do Carandá desenvolviam oficinas. Todos os dias havia, de manhã, uma oficina, e à tarde uma saída, ou o contrário. Quer dizer que as crianças eram convidadas a ter uma actividade interna para desenvolver oficinas de teatro, de fantoche ou de culinária e de tarde faziam uma visita integrada aos recursos pedagógicos e patrimoniais da cidade.
“A partir deste ano temos companhia residente”
Quantas crianças estão envolvidas convosco?
No ano passado contámos 130 crianças. Este ano, após um trabalho de sensibilização junto da sociedade, nós espe-ramos aumentar o número de crianças envolvidas com o nosso projecto.
Quais são os limites de idade?
Nós dividimos as oficinas em quatro escalões. O primeiro nível é para os meninos do 1.º ciclo. O segundo é para os meninos do segundo e assim e diante até ao quarto nível que é para os meninos do secundário. Para adultos temos a teatroterapia, que é um teatro destinado a pessoas de todas as idades, pode ser para adultos que queiram fazer teatro para descomprimir; temos outra vertente para Erasmus, uma experiência para ensinar Português através de teatro, destinada a jovens estrangeiros que estão cá a frequentar a universidade.
O Tin.Bra tem um formador estrangeiro, Wagner Kosisck... é de Leste?
Tem sangue de Leste mas é brasileiro. Fez formação com actores de Leste e adopta esse nome.
O grupo faz agora 18 anos, atinge a maioridade. Isso quer dizer que vai evoluir no sentido de um teatro mais adulto?
Sim. Sem deixar de lado as crianças, que serão sempre alvo do nosso trabalho, a verdade é que temos recebido muitas solicitações para levar espectáculos às escolas. E não poderemos levar espectáculos às escolas só com elenco escolar. A partir deste ano vamos concretizar um sonho que é o de ter uma companhia residente; vamos trabalhar textos que são recomendados pelo PNL — Plano Nacional de Leitura ou que fazem parte integrante do plano de estudos até ao terceiro ciclo.
Pode dar exemplos? Gil Vicente? Almeida Garrett?
Este ano vamos pegar em 'Ulisses', de Alberta Menéres, uma recomendação dos professores de Português, que faz parte do livro de leitura do 6.º ano e que os professores normalmente trabalham mas depois falta-lhes a parte da dramatização. Eles gostam de trabalhar o texto na sala de aula mas depois levar os alunos a ver o texto dramatizado. Porque temos esta parceria com as escolas, vamos de encontro aos seus interesses, fazendo este trabalho com entusiasmo e penso que vamos ter um bom desempenho.
Quem são esses actores? São conhecidos?
Alguns são 'tin.bras' pequeninos que fizeram o seu percurso de formação já como actores profissionais e que volta, agora a casa já com outro papel. Há outros como a Sónia Sousa, que trabalha connosco há 17 anos, veio para cá menina, fez um estágio profissional no Tin.Bra e nunca mais saiu; é ela que agora coordena esta equipa. Outro caso é a Eva Paula Fernandes, a quem andamos a fazer o convite há dois ou três anos e ela este ano aceitou trabalhar connosco e temos o Wagner Kosisck, que nos foi indicado por jovens que fizeram formação connosco. É um excelente profissional em várias linguagens de palco. A Marta Carvalho começou pequenina e agora é formadora.
Essa evolução vai implicar um crescimento de dimensão económica e organizativa do Tin.Bra?
O Tin.Bra, como associação sem fins lucrativos, tem feito uma ginástica enorme para manter estas valências e para se estruturar.
Para além dos custos suportados pelos pais dos vossos jovens formandos, têm outras fontes de receita?
Não temos, a não ser o apoio da RNAJ. Somos uma associação jovem. Mas o apoio da RNAJ, como toda a gente sabe, é muito pequenino e tem sido destinado a investimento em equipamentos. O Tin.Bra não tinha nada e neste momento termos já um bom equipamento com a ajuda da RNAJ. A Câmara Braga tem-nos dado apoio institucional. Cede-nos o o Auditório do Galécia, o que é muito bom, e uma sala no Mercado Cultural do carandá. Este apoio é mito bom porque melhora a anterior situação em que o Tin.Bra tinha de andar da Escola André Soares para a Junta de Freguesia de S. Victor ou para o IPJ, com formadores e com crianças, o que era incomportável. Com este apoio que a Câmara nos cedeu, nós lançámos um apelo à Câmara Municipal no sentido de que se volte para o Tin.Bra como uma Associação que faz no terreno um trabalho meritório. Ao nível da cultura acho que deve ser reconhecido o nosso esforço e deveria ser-nos cedida aquela parte do Mercado Cultural do Carandá que está desocupada; esta ideia faz todo o sentido porque de um lado está a escola da dança, do outro está a construir-se a escola da música.
Se acrescentasse o teatro ficava ali com as três linguagens artísticas integradas, que podiam lidar de uma forma integrada, rentabilizando recursos físicos e recursos humanos e valorizando aquela zona como um espaço cultural de excelência.
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