Viana do Castelo, que até teve a primeira mulher presidente de câmara no Portugal pós 25 de Abril, vê hoje a política, no distrito, ser quase exclusivamente conjugada no masculino.
Actualmente, das dez câmaras do distrito apenas a de Caminha é liderada por uma mulher, predomínio masculino igualmente bem vincado em termos de juntas de freguesia, com apenas 11 lideradas por mulheres, num total de 290.
O panorama é igualmente arrasador em termos de liderança das estruturas partidárias concelhias, em que Maria Luísa Gonçalves, presidente do PS de Melgaço, aparece como uma espécie de lança em África.
De resto, todas as concelhias do PS, PSD, CDU, CDS-PP e Bloco de Esquerda, do distrito, são presididas por homens.
Falecida em 2008, Maria Augusta d'Alpuim foi vereadora da Câmara Municipal de Viana do Castelo, com o pelouro da Instrução e Assistência, desde 1968 até ao 25 de Abril de 1974.
Com a revolução, os presidentes de câmara foram demitidos, sendo, por lei, substituídos pelo vereador mais antigo, que no caso de Viana do Castelo era Maria Augusta.
Esta mulher exerceu o cargo durante cinco meses, até à formação de uma Comissão Administrativa, tornando-se assim a primeira mulher presidente de câmara em Portugal.
No entanto, o exemplo não vingou, e hoje, passados quase 35 anos, as presidências políticas e partidárias no distrito de Viana do Castelo continuam, na sua esmagadora maioria, entregues a homens.
Nos 10 concelhos do distrito, apenas em Caminha a presidência da câmara está entregue a uma mulher, Júlia Paula Costa, eleita pelo PSD, e actualmente a cumprir o seu segundo mandato.
'A sociedade portuguesa ainda é muito patriarcal e esse será, certamente, um dos factores que leva a que haja poucas mulheres na política. Eu também, se tivesse filhos pequenos, se calhar não estaria neste cargo', admitiu, em declarações à Lusa, a autarca.
Júlia Paula confessou que se sente 'mui
to bem' no cargo e recomendou mesmo a experiência a outras mulheres, para que dêem o seu contributo 'para um Portugal e um mundo melhores'.
'As mulheres, se calhar, têm uma forma um bocadinho diferente de estar na política. Não somos tanto de almoços, como os homens, mas mais de reuniões', acrescentou Júlia Paula, ressalvando que isto não tem 'uma pinga de crítica' em relação aos autarcas masculinos.
No resto do país, o panorama é em tudo semelhante, já que, de um total de 308 municípios, apenas 21 são liderados por mulheres.
No distrito de Viana do Castelo, a 'ditadura masculina' está expressa de uma forma ainda mais elucidativa, em termos de presidências de juntas de freguesia, já que, de um total de 290, apenas 11 são lideradas por mulheres.
O concelho de Ponte de Lima, com 51 freguesias, é o que apresenta maior número de mulheres presidentes de junta, concretamente três, em Brandara, Cabração e Estorãos, enquanto que, no pólo oposto, Ponte da Barca, Melgaço e Caminha 'nem sequer uma apresentam para amostra'.
Em Valença há duas (Arão e Silva) e em Arcos de Valdevez outras tantas (Cabreiro e Grade).
Vila Nova de Cerveira (Sopo), Monção (Segude), Paredes de Coura (Cossourado) e Viana do Castelo (Cardielos) são os casos restantes.
Cardielos foi, aliás, notícia na campanha para as últimas eleições autárquicas, já que as três forças concorrentes (PSD, PS e CDU) apresentaram cada qual a sua Maria como cabeça-de-lista.
A vitória acabou por sorrir à social-democrata Maria Alexandrina Castilho.
O ano de 2005 marcou, assim, o fim do reinado masculino em Cardielos, curiosamente uma freguesia que até tem uma tradição - o Bife da Páscoa - marcadamente machista.
Neste “curioso” bife, a entrada é exclusivamente permitida a homens, sendo as mulheres 'obrigadas' a ficar em casa a preparar os 'paparicos' para oferecer ao mordomo da Cruz e a todos os que acompanham o compasso.
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