História da Revolução nas ruas de Braga

Braga

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José Paulo Silva

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A exposição fotográfica “Braga nos tempos da 1.ª República: ressonâncias sócio-culturais” é uma das próximas iniciativas do programa do “Centenário”. A mostra, organizada pelo Museu da Imagem e Universidade do Minho, é inaugurada no dia 15, na Escola Secundária Sá de Miranda
A vereadora da Cultura da Câmara, Ilda Carneiro, adiantou ontem que a exposição, acompanhada de uma brochura com textos explicativos, fará itinerância por outras escolas do concelho.

Até ao final do ano, decorre o ciclo de conferências sobre a 1.ª República, estando a próxima agendada para 26 de Outubro, no salão nobre da reitoria da Universidade do Minho. Ernesto Castro Leal, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vem falar de “Partidos e Programas Políticos Republicanos”.
A vereadora da Cultura destaca a conciliação destas iniciativas culturais com a programação de rua e de cariz mais popular que ontem aconteceu.

A Avenida Central foi palco escolhido para a instalação de um mercado e de tasquinhas, numa organização conjunta com a Associação de Artesãos do Minho.
O espaço foi animado com diversas encenações, jogos tradicionais e a recriação de pregões dos ardinas, padeiros, peixeiras, azeiteiros, mulheres da carqueja e outras personagens do Portugal do início do século XX.

Carvalho do Centenário

A Câmara aproveitou a data para a plantação do carvalho do Centenário, árvore que perpetua a efeméride no Largo João Penha, um homem da República.
Para Ilda Carneiro, “o grande contributo das comemorações do Centenário” é o desenvolvimento do “espírito de cidadania entre os mais jovens” através do conhecimento do que foram as transformações operadas pela República. Se bem que, como reconheceu, alguns dos ideais republicanos ainda sejam uma utopia.

Actualidade de Junqueiro nos cafés da República

Os frequentadores de três cafés da cidade de Braga ouviram, ontem, Guerra Junqueiro apresentar a situação dramática em que Portugal se encontrava em finais do século XIX.
O escritor e actor Fernando Pinheiro leu extractos de “A Pátria”, obra onde Junqueiro faz a apologia da República em função da situação dramática em que se encontrava o país.

Integrada no programa comemorativo do Centenário da República, organizado pela Câmara Municipal de Braga em parceria com a Universidade do Minho, as leituras nos cafés “A Brasileira”, “Vianna” e “Ferreira Capa” permitiram estabelecer comparações imediatas entre a situação do Portugal do fim da Monarquia e a actual situação de crise social e económica.

“Na Brasileira as pessoas riram-se porque estabeleceram imediatamente um paralelo com a situação actual”, constatou Fernando Pinheiro, rigorosamente vestido à época para estas incursões pelos três cafés do centro da cidade, dois deles, “A Brasileira” e o “Vianna”, contemporâneos de Guerra Junqueiro, intelectual que lutou para que a revolução não desse origem a uma República doutrinária e 'estupidamente jacobina', mas que sempre pugnou por “uma República larga, nacional, onde coubessem todos, sem distinção de classes, credos ou cor”.

Em “A Pátria”, livro publicado em 1896, Guerra Junqueiro descreve “um grande sentimento de revolta entre a população portuguesa” e um país na bancarrota com 700 mil contos de dívida.
Perante estes dados, as comparações com os tempos foram inevitáveis.

Para além das leituras de “A Pátria”, o programa do Centenário da República contou, durante a tarde de ontem, no centro da cidade, com a dramatização “República no Feminino”, a cargo de alunas do Conservatório Calouste Gulbenkian; “Os Sons e Palavras de 100 anos de República”, textos e músicas apresentados pela Associação Fazer Acontecer”; e a interpretação do quadro “As Alcoviteiras”, pelo grupo de teatro Tin.Bra.

História da Revolução nas ruas

A recriação, ontem de manhã, nas ruas da cidade, da revolta de 31 de Janeiro de 1891, da campanha pelo voto responsável nas eleições de 28 de Agosto de 1910 e da luta das classes trabalhadores dessa época por melhores condições de vida constituiu um dos momentos marcantes das comemorações do Centenário da República em Braga. Pena foi que esta ‘lição’ de História, protagonizada por um grupo de alunos do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, não tenha sido vista por muitos.

No Largo da Senhora-a-Branca, bem perto da rua baptizada com a data da fracassada revolta dos republicanos do Porto, os alunos do Conservatório explicaram como, apesar da repressão das forças monárquicas em 1891, “a semente republicana continuou a criar raízes”.
Com vivas à República, o grupo dirigiu-se à Praça do mesmo nome, onde leram apelos ao voto responsável, com referências às eleições de 28 de Agosto de 2010, as últimas antes da queda da Monarquia.

Manuel Monteiro, destacado militante republicano, então candidato pelo círculo de Braga, foi recordado com a ousada declaração: «Que todos os cidadãos votem não como carneiros ou cousas” mas sim com responsabilidade.
No mesmo local, foi lembrado o descontentamento das classes laboriosas que, nessa fase terminal do regime monárquico, reclamavam por melhores condições de vida. “Queremos descanso ao domingo e menos horas de trabalho”, pedia o povo farto de “trabalho com salários de miséria e de sol a sol”.

Ao som dos tambores da Equipa Espiral, os protagonistas da recriação da revolta republicana dirigiram-se depois aos Paços do Concelho, onde deram vivas ao novo regime.
Nas varandas da Câmara, os actores Rui Madeira e Camilo Silva encarnaram as figuras de José Relvas e Manuel Monteiro.
O primeiro leu o discurso de proclamação da República, proferido a 5 de Outubro de 1910, na Câmara de Lisboa.

O segundo recordou às poucas dezenas de pessoas que se juntaram na Praça do Município que a notícia da proclamação da República só chegou a Braga dois dias depois.
Manuel Monteiro foi nomeado nesse dia 7 de Outubro de 1910 governador civil do distrito de Braga
A acta da proclamação da República em Braga, lida no mesmo edifício dos Paços do Concelho, declarava ‘ao povo que aí estava presente estar proclamada a República portuguesa e estabelecido o respectivo governo provisório”.

Reza a acta, ontem repetida da varanda da Câmara, que o anúncio foi aclamado “com entusiasmo”.
A proclamação da República foi reconhecida então “pela numerosa assistência, onde estavam representadas todas as classes sociais”.

“A República é eterna”

Cem anos passados, o actual presidente da Câmara de Braga afirma, que apesar dos “momentos difíceis” que Portugal atravessa, “esta República é eterna”.
“O direito que nós temos de escolher os nossos governantes é inalienável”, considerou Mesquita Machado que, acompanhado da restante vereação socialista, assistiu à recriação da proclamação da República na Praça do Município.

Conformado com os cortes de apoios sociais, apresentados pelo actual Governo como necessários para superar o défice das contas públicas, o presidente da Câmara de Braga lembrou que, há cem anos, Portugal “era praticamente um país de analfabetos, onde não existiam liberdades, onde a maioria dos cidadãos não tinha direito à saúde”, pelo que são demagógicas as comparações entre estes dois momentos da nossa História.

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