Cercifaf: Emprego é possível para muitos

Vale do Ave

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Marta Amaral Caldeira

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Marco Paulo, 33 anos, e Flávio Castro Freitas, 20 anos, são pessoas portadoras com deficiência mental - um facto que não os impediu, todavia, de ter uma vida normal como qualquer outra pessoa, com trabalho, casa, filhos para criar e impostos para pagar.
Os dois mecânicos ‘especiais’ que a equipa de reportagem do ‘Correio do Minho’ foi visitar ao seu local de trabalho são também dois dos rostos que já passaram pela formação da Cercifaf - Cooperativa de Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas de Fafe - uma formação que lhes permitiu ganhar competências e conseguir um lugar no já difícil mercado de trabalho.
O Marco é melhor mecânico que falador. O Flávio é melhor falador que mecânico. Mas cada um deles faz o melhor que pode, todos os dias, num trabalho que os acolheu de braços abertos e onde se vão realizando profissionalmente também.
“O Marco é um bom colega. Está cá há volta de três anos e já trabalha bem na parte de mecânica, claro que tem certas limitações, mas desenrasca muita coisa. O Flávio é mais tipo ajudante. A trabalhar tem muitas limitações, mas é um bom ajudante”, garante Paulo Novais, um dos mecânicos supervisores da Oficina Mecânica de Roberto Domingues da Cunha, em Quinchães, Fafe.
Estes são, apenas, dois exemplos entre os mais de 240 utentes que já passaram pela instituição e que encontraram um emprego que se enquadre nas suas aptidões.
Sem nunca parar de trabalhar, o Marco Paulo disse que gosta muito do trabalho de mecânica. “Já ando aqui há muito tempo”, atirou, martelando o motor da máquina que atentamente arranjava, acrescentando que é importante trabalhar-se.
“Eu gosto muito desta arte a que vim parar e gostava de aprender tudo e mais alguma coisa. É uma arte muito bonita e dá muito dinheiro para quem souber atinar com a cabeça. Eu acho que já estou a conseguir aprender alguma coisinha”, comentou o Flávio.
“Muitas vezes a inclusão, integração, não é um problema de decreto, é um problema de atitude. As atitudes vão-se mudando. Eu penso que a grande vitória da Cercifaf é a postura na sociedade e na nossa cidade. A Cerci não é vista na cidade como aquele centrinho que faz caridadezinha. São coisas que lutámos para mudar e Fafe é hoje uma cidade mais solidária do que caritativa”, aponta Luís Roque, director técnico da instituição.
“As próprias empresas, por exemplo, têm mais disponibilidade ainda que nesta fase haja maiores dificuldades, porque são as dificuldades que existem para toda a gente”.
Belarmino Costa, um dos elementos da direcção da instituição, refere que o número de pessoas com deficiência emprega- das é importante porque “significa que essas pessoas eram vistas antes de alguma maneira sem competência e hoje são pessoas que apesar das diferenças, apesar mesmo de algumas diferenças de produtividade, o certo é que têm meios suficientes para produzir e para estar inseridas nos quadros de trabalho e que em vez de serem beneficiários do Estado são contribuintes. Há aqui uma lógica que completamente se reverteu”.
A sociedade fafense tem-se adaptado ao longo dos anos para a integração dos jovens com deficiência e as empresas locais têm sabido acolhê-los, mostrando sinais de uma mudança de mentalidades profunda, destacam os responsáveis da Cercifaf.
“Nós não procuramos empregos, quando vamos à procura de colocações de jovens no mercado de trabalho, vamos à procura de espaços e oportunidades de trabalho e sabemos que o mercado tem nichos de oportunidade, que nós temos que pesquisar para ver qual é o melhor enquadramento de perfil de pessoa às exigências de uma determinada situação de trabalho. O que nos interessa é procurar essa oportunidade o melhor possível”, diz Belarmino Costa.

Jovens vivem independentes na cidade

O Nuno e a Margarida são dois dos jovens, com deficiências diferentes, que um dia se encontraram na Cercifaf e se apaixonaram para sempre. Hoje, vivem em união de facto, têm os seus empregos e todas as rotinas diárias de todos os casais que vivem de forma independente.
A vida independente destes jovens que têm condições para viver por si só na cidade é, agora, promovida também pela Cercifaf, depois de mais alguns casos de casais se terem revelado e que para a instituição não é mais do que um projecto inovador e incentivador de uma ‘cidadania activa’. O projecto, aliás, já foi apresentado à própria Segurança Social, mas ainda não obteve qualquer resposta.
“A nossa ideia é que também as pessoas com deficiência, mesmo os que têm mais dificuldade, e quando perdem as famílias, não serão obrigadas a viver rigorosamente em institucionalidade, mas a viver, os que têm capacidade para trabalhar, também têm capacidade para viver independente na cidade”, indica Luís Roque, director técnico da Cercifaf.
“Normalmente em grande parte das instituições esta situação era completamente irreal e estes jovens viveriam eventualmente numa residência. É esta a nossa filosofia: de abertura”.

Casais jovens já vivem de forma independente

Neste momento são já 15 pessoas que vivem de forma independente na cidade em apartamentos que alugam, que pagam, onde a Cercifaf apenas faz uma pequena supervisão de ajuda.
“A nossa ideia deste projecto de vida independente é fazer com que aquelas pessoas que já adquiriram autonomia e que já têm o seu emprego e têm as suas condições de vida basicamente asseguradas, a única coisa que precisam é, e precisam porque estamos a falar de pessoas com défices intelectuais, de quem os apoie em algumas situações que não são capazes de controlar”, refere Belarmino Costa, da direcção da instituição.
Entre essas orientações está a gestão das responsabilidades, a gestão financeira, a questão da alimentação, a gestão até do próprio consumo do tempo, “porque se não houver alguma supervisão são pessoas que podem ficar o fim-de-semana por exemplo fechados em casa e pretende-se é que eles vivam a cidade de uma forma o mais natural possível”.
Esta procura de vida independente por parte dos jovens portadores de deficiências, mas que consigam viver de forma independente tende a aumentar, na opinião dos responsáveis da Cercifaf.
“A experiência já vem sendo desenvolvida há alguns anos, embora nos últimos três se tenha acentuado um conjunto de casos que nos dá para ver hoje que vai aumentar e não há residências que resistam. A nossa residência, e a dos outros, tem uma capacidade muito limitada para acolher todas as pessoas que não têm retaguarda familiar ou que não têm condições para sobreviver por si mesmas, não haveria residências que resistissem, nem há. Portanto nós tivemos que avançar para situações deste tipo embora tudo isto sem nenhum apoio”, comenta Luís Roque.

“Certificar competências é desafio da formação”

O grande desafio do futuro para a Cercifaf assenta numa só palavra: a ‘qualidade’ dos seus serviços, a par de uma estreita colaboração com a comunidade, atendimento personalizado e ir o mais longe possível na formação para a cidadania.
“As organizações como a Cercifaf atravessam, hoje, um espaço em que têm de criar condições até para responder às exigências legais, às exigências modernas, de qualidade, não só qualidade dos equipamentos mas também de qualidade da gestão, qualidade técnica e, ao mesmo tempo, gerir de forma sustentável. E a sustentabilidade não é fácil”, desvenda Belarmino Costa, da direcção da Cercifaf.
A instituição acaba de receber a Certificação de Qualidade Sistema EQUASS - um sistema de reconhecimento, garantia e certificação da qualidade das organizações que prestam serviços sociais.
Uma certificação que para os responsáveis da Cercifaf “permitirá assegurar o futuro, prestando cada vez mais e melhores serviços sociais a todos quantos deles precisem”.
Para Belarmino Costa, “não é possível organizações como a Cercifafe sobreviverem e enfrentar o futuro se não se investir em equipamentos de qualidade e em respostas técnicas de qualidade. Longe vai o tempo em que bastava estar cá dentro”.
Para o responsável a questão que, ora, se coloca passa pela certificação das competências adquiridas.
“A formação profissional por exemplo está a atravessar um desafio que penso que é interessante; trata-se da certificação das competências adquiridas do ponto de vista profissional e da certificação de competências académicas”, apontou.
Belarmino Costa aponta, todavia, para um gap que existe na questão escolar dos formandos de instituições como a Cercifaf, uma vez que “as exigências de entrada no mercado de trabalho são grandes e as exigências de competências, escolares, académicas, em muitos casos, não lhes permite sequer a entrada. Ora o desafio que está agora sobre a mesa é como certificar competências escolares e académicas com pessoas com deficiência”.
“Há uma coisa que eu estou cada vez mais convicto, é que estas organizações serão cada vez mais centros de recursos e de competência. E dentro desta lógica obriga a que nós tenhamos qualidade e certificação, porque temos que fazer também marketing social. Se nós não divulgarmos aquilo que fazemos, as boas práticas, ninguém nos conhece, ninguém sabe”, indica o responsável.
Há mais de 32 anos a desenvolver o seu trabalho técnico na Cercifaf, Luís Roque diz, com simplicidade, que as suas dúvidas até aumentaram, advertindo que este tipo de projectos são sempre “projectos em construção e desenvolvimento”.
No ponto de vista do director técnico da cooperativa, o futuro impõe “menos intervenção. É muito mais uma intervenção nos espaços, nos locais, no caso concretamente da educação não há nenhuma dúvida, é estar na escola e ir o mais longe possível. Nós não queremos ter um próximo projecto, mas, sim, afirmar a gestão da qualidade”.

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