“As cidades também são feitas de pergaminhos”

Vale do Ave

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Rui Serapicos

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Ter parte substantiva do espólio da Colegiada da Senhora da Oliveira em formato digital até ao final do ano é objectivo do Município de Guimarães, disse ontem, a vereadora da Cultura.
“As cidades são feitas de ruas e de praças, de granito mas também de pergaminhos e de memórias e essas memórias estão encerradas”, vincou, em declarações ao Correio do Minho.

Francisca Abreu prestava declarações no 80.º aniversário do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. Durante a sessão comemorativa foi apresentado o Boletim Trabalhos Históricos Série III, com estudos de João Bonifácio Serra, que integra o conselho de administração da Guimarães 2012 para a Capital Europeia da Cultura, Maria José Queirós Meireles, António José de Oliveira, todos eles historiadores, e Maria Elisabete Sousa Pinto, jornalista.

Mais de 4.200 documentos foram para Lisboa

Maria José Meireles, que naquele volume publica o estudo “A Colegiada de Guimarães e a Exposição de Arte Ornamental de 1882”, lembrou durante a apresentação do seu trabalho os problemas causados na cidade-berço quando em meados do século XIX, com a extinção, pelo poder liberal, das ordens religiosas e das colegiadas, se deu a transferência para Lisboa de mais de 4.200 documentos da Colegiada da Senhora da Oliveira.
É parte dessa memória que a vereadora da Cultura quer recuperar, em formato digital.

“Quase da genética”

“Faz parte da memória, quase da genética actual dos vimaranenses esse grande desconforto causado pela retirada dos documentos da Colegiada de Guimarães para serem levados para a Torre do Tombo”, disse a autarca ao CM, lembrando haver vozes “que se levantavam, no sentido de se ir buscar esses documentos a Lisboa, à Torre do Tombo”.

Reconhecendo que tal já não é possível, a vereadora explica que a Câmara de Guimarães estabeleceu contactos com a Torre do Tombo, no sentido de trazer “de outra forma, em formato digital”, esses documentos para Guimarães, para os disponibilizar à fruição pública, “principalmente para os investigadores”. “São milhares de documentos a digitalizar”, salienta, vincando que “queríamos no final deste ano apresentar já um bocadinho desse trabalho, para que as pessoas percebam que vale a pena ter essas memórias disponíveis para todos”.

De acordo com a autarca, o projecto envolve “um pacote financeiro estimável”, mas, acrescenta, “nós entendemos que valia a pena este investimento, porque era muito importante para a nossa memória”.

Pulsar urbano de há um século

Nos estudos ontem apresentados que integram o Boletim Trabalhos Históricos, João B. Serra aborda o impacto da I República em Guimarães. Na cidade-berço o historiador detecta factores que a distinguem, destacando a “densidade do movimento associativo” e “sinais de elites urbanas”, como jornais e montepios e notícias de reuniões, contrariando uma visão mais ou menos generalizada pelos historiadores segundo a qual no início do século XX a vida urbana fora de Lisboa seria mais rara.

António José de Oliveira debruça-se sobre inventários da Colegiada, desvendando um caso de roubo e Elisabete Sousa Pinto lança um olhar sobre a vida e obra de Bernardino Jordão, empresário precursor da exploração da energia eléctrica e das artes, que deixou o seu nome ainda hoje ligado a uma casa de espectáculos.

Fundado por decreto de 1931

O Arquivo Municipal de Gui-marães (AMG), oi constituído pelo decreto n.º 19.952 de 27 de Junho de 1931 — em fase de construção do Estado Novo — e esteve instalado desde 1963 na Capela do Convento de Santa Clara.
É denominado Alfredo Pimenta em 1952, em homenagem ao historiador que foi seu primeiro director.

O AMG funciona desde 2003 na Casa Navarros de Andrade, na confluência das ruas Gravador Molarinho e João Lopes de Faria, um imóvel onde em 1940 foram instalados o Tribunal de Trabalho e a Polícia de Segurança Pública.

Câmara assumiu os custos desde a fundação

O decreto que instituiu o Arquivo Municipal excluiu, desde o início, o Estado das despesas na sua criação e manutenção, competindo os encargos de material, pessoal e expediente à Câmara Municipal de Guimarães. Ainda no mesmo ano inicial de funcionamento, Alfredo Pimenta é nomeado director do arquivo. Decorrendo entre 1931 e 1934 a instalação do AMG na sede da Sociedade Martins Sarmento, em Março de 1933 é publicado o primeiro número do Boletim de Trabalhos Históricos (ontem saiu o mais recente).

Em 1934 passa a ser instalado no antigo edifício dos Paços do Concelho, ao Largo da Oliveira. Em 1963 o ofício n.º 6227 dos Edifícios e Monumentos Nacionais dá conta da situação precária e de segurança daquele edifício dos Antigos Paços do Concelho, propondo a realização de obras. A câmara, em ofício de 29 de Outubro de 1963 dá como concluídas obras no Convento de Santa Clara, onde funcionava o liceu, para aí instalar o arquivo municipal.

O Arquivo Municipal Alfredo Pimenta passa a incorporar os livros paroquiais do concelho de Guimarães, por determinação da Inspecção Superior de Bibliotecas e Arquivos.
Guimarães é o único concelho do distrito que não tem os arquivos paroquiais no Arquivo Distrital de Braga.

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