As concertinas são a vida de Delfim, que toca desde os cinco anos e que hoje tem uma colecção com mais de cem daqueles instrumentos, a maioria dos quais exposta na sua tasquinha em Arcos de Valdevez.
'Ainda ontem comprei mais uma, por 500 euros. É mais uma para a colecção. E, se Deus quiser, a coisa não há-de ficar por aqui. Tenho paixão por isto, que é que se há-de fazer?', diz Delfim Pereiras Amorim, 68 anos, e toda uma vida 'embrulhada' nas concertinas.
A tasquinha do Delfim é uma espécie de museu da concertina.
O proprietário está sempre disponível para conduzir uma 'visita guiada' pelas dezenas e dezenas de instrumentos que ali estão expostos, das mais variadas nacionalidades, cores e feitios.
'Todas as concertinas estão perfeitamente operacionais', garante Delfim, fazendo questão de o comprovar na hora.
'Para tocar, estou sempre pronto', atira, soltando, de imediato, uma gargalhada maliciosa.
O freguês entra, instala-se à vontade que “a gente aqui não é de peneiras', troca dois dedos de conversa com o proprietário por entre uma malga de vinho e, quando menos espera, está a ser 'brindado' com uma modinha.
'Recebo excursões atrás de excursões. As pessoas gostam disto, 'alapam-se' aqui e não querem sair. Às vezes, quase que sou obrigado a pô-las na rua, para fechar a porta e ir dormir', brinca.
Delfim começou a tocar aos cinco anos, numa concertina que o pai trouxe da América.
'Não havia rádio, não havia televisão, não havia nada, entretinha-me a tocar', conta, confessando-se 'músico de ouvido'.
Em 1964, comprou a sua primeira concertina, na Feira da Ladra, em Lisboa, por 1.600 escudos (oito euros).
'Fui para Lisboa trabalhar, só para ganhar para a concertina. Quando o conse
gui, comprei-a e fiquei apenas com dinheiro para a viagem de regresso a casa', lembra.
Em 1973, comprou uma outra que ainda hoje é a menina dos seus olhos.
Foi 'de carro de praça' de propósito a Lisboa para a comprar. Pela viagem pagou 500 escudos (dois euros e meio), pela concertina três contos (15 euros)
Mostrou-nos uma concertina (a 'Cooperativa Stradella) que possui há 35 anos.
Há uns cinco anos, chegaram a oferecer-lhe 2500 euros por ela, mas Delfim recusou.
'Ia lá desfazer-me da minha menina!', exclamou.
A sua primeira actuação a sério foi em 1970, nas Feiras Novas de Ponte de Lima, num concurso de tocadores e cantadores ao desafio. Ficou em primeiro lugar, tendo ganho 800 escudos (quatro euros).
'Costumo dizer que ganhei duas pipas de vinho, porque na altura um garrafão de cinco litros custava quatro escudos. Metade do dinheiro do prémio gastei-o no mesmo dia, na festa. Só não bebeu quem não quis', conta.
A fama de Delfim começou então a correr mundo e a render-lhe 'alguns cobres' na sua conta bancária.
Há duas décadas atrás, cobrava 60 contos (300 euros) por uma actuação de 'duas horitas e meia'.
Hoje, cobra mais ou menos a mesma coisa, só que 'naquela altura, o dinheiro valia muito mais'.
Percorreu Portugal de lés-a-lés e actuou em vários países do mundo, com destaque para a França, onde foi 222 vezes.
Confessa que a arte de bem tocar e cantar lhe dava muita popularidade entre as raparigas.
'No meu tempo, quem tocasse concertina tinha o que queria', deixa escapar Delfim, para imediatamente 'calar o bico', não fosse o diabo tecê-las e acabasse por dizer coisas que levassem a mulher com quem está casado 'há 36 anos e meio' a 'pegar no rolo da massa'.
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