Felisbela Lopes: 'O país real não passa nas televisões'

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José Paulo Silva

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Autora do livro ‘Vinte Anos de Televisão em Portugal’, Felisbela Lopes entende que o país fora da capital não se revê nas grelhas dos canais televisivos. Em entrevista, a investigadora da Universidade do Minho diz que a TV influencia cada vez mais as decisões políticas.

P - Afinal, o que mudou em Portugal com a televisão privada?
R - Acho que é possível dizer que o país que somos neste momento é, em grande parte, produto da televisão que fomos tendo, muito por acção dos canais privados. Foram os canais privados que obrigaram o serviço público a desinstalar-se. Nestes 20 anos tivemos a RTP, SIC e TVI a serem estruturantes em diversos campos, nomeadamente no campo político, no futebol, na economia e na justiça. Dou como exemplo as entrevistas de Judite de Sousa a banqueiros que, de certa forma, aceleraram o pedido de ajuda financeira de Portugal. No meu livro há políticos que reconhecem esta influência da televisão na acção política. Cavaco Silva diz que a televisão cria uma grande pres-são sobre o modo e o explicar das decisões. Podemos dizer com alguma certeza que a sociedade portuguesa tem um determinado desenho e é comandada por determinados protagonistas por causa da televisão.

P - A televisão condiciona as decisões políticas?
R - Sim. E condiciona a aceitação ou a refutação de decisões políticas. Os media não nos dizem o que pensar, mas no que pensar.

P - As televisões privadas deram muito estatuto aos comentadores que se transformaram em actores políticos. Isto não é um pouco perverso?
R - A televisão transforma os comentadores em celebridades mediáticas. Antes das privadas isso não acontecia. As televisões perceberam que certos comentadores arrastam audiências. Estes comentadores entraram no mercado, são disputados quase como os jogadores de futebol. Essas pessoas, seja o professor Marcelo Rebelo de Sousa, sejam os comentadores de futebol, começam a ser influentes no espaço em que se movimentam.

P - O surgimento dos canais temáticos de informação vieram alterar a grelha dos generalistas? Estes passaram a ser mais de entretenimento?
R - A grelha dos generalistas mudou muito por arrastamento do formato ‘Big Brother’. Uma história que se conta no meu livro é que a SIC quis comprar o ‘Big Brother’ à Endemol para não o exibir. Pinto Balsemão disse que aquele formato não cabia na SIC, mas a TVI que não tinha nada a perder, comprou. Ao esticar o ‘Big Brother’ na grelha a TVI criou um problema à SIC que começou a pôr no ar produtos derivados, colocando de fora a informação. Os canais temáticos dão uma parte da informação que não cabe nos canais privados generalistas. A SIC e a TVI, depois dos jornais das 20 horas, são essencialmente canais de entretenimento.

P - Os canais temáticos vão continuar a ganhar audiências?
R- Há, a nível global, uma fragmentação das audiências, um consumo por mosaico. Isto significa que os canais generalistas perdem telespectadores. Mas não concordo com aqueles que dizem que os canais generalistas estão condenados à morte. Os generalistas vão continuar a perder audiências se continuarem a ser todos iguais. A SIC passou a ter sucesso com a tele novela ‘Gabriela’ porque deixou de ter a ambição de copiar as novelas portuguesas da TVI.

P - Diz-se que a SIC, quando apareceu, foi ter com o país real. O programa ‘Praça Pública’ foi exemplar nesse sentido. Passados 20 anos, a ‘província’ revê-se nas televisões?
R -Não. O jornalismo de proximidade daquilo que se passa fora da capital é feito sobretudo quando os acontecimentos se caracterizam pelo traço negativo. O país que está fora de Lisboa só é notícia quando o poder instituído vai até ele, ou quando acontece uma calamidade. Perceber os problemas reais é mais difícil, porque as estações não investem em delegações. Os jornais, que ajudam a fazer o agendamento das televisões, também deixaram de apostar no país real. Não há uma agenda nacional, há uma agenda de Lisboa.

P - Com este quadro, que papel deve ser desempenhado pela televisão pública?
R - Se a televisão pública fechar o centro de produção do Porto, um conjunto grande de vozes silenciam-se. Tenho um estudo em permanência sobre quem fala em televisão. Os leitores podem perguntar-se quem é que de Braga vêem na televisão. Braga tem quadros, uma universidade com mais de mil doutorados, tem tecido empresarial, tem massa crítica... Uma pessoa que vive e trabalha e Braga quantas vezes vai à televisão dizer o que pensa do país? O único canal onde essas pessoas têm alguma expressividade é a RTP Informação. Em todos os outros, 90 por cento dos convidados são da região de Lisboa.

P - Podemo-nos pôr em bicos de pé e reclamar um lugar?
R - Temos de estar conscientes da importância da proximidade do serviço público de televisão. A televisão tem de ter uma estrutura descentralizada para cumprir o princípio da diversidade do serviço público. Ninguém vai a Lisboa para falar cinco minutos numa televisão.

P - O serviço público de televisão pode ser assegurado por estações privadas?
R - Eu acho que não. Tenho sérias dúvidas de que os privados estejam interessados em fa- zer serviço público em horário nobre.

P - O que é o serviço público?
R - Essa é a grande questão. O serviço público deve respeitar uma oferta diversificada de conteúdos ao nível da informação e do entretenimento. Deve respeitar o equilíbrio de vozes. O valor da diversidade pode, por si só, ajudar a definir o que é o serviço público.

P - A RTP respeita esse valor?
R - Eu gostaria que a RTP cumprisse mais o serviço público.

P - O ‘chumbo’ do seu nome para provedora do telespectador da RTP teve a ver com o facto de não ser de Lisboa?
R - Não. Teve a ver com outras lógicas. O conselho de administração convidou-me, mas um membro do Conselho de Opinião da RTP fez grande pressão para ser nomeado. Perdi no Conselho de Opinião por dois votos. Acabei por desistir.

P - Afastou-se também de um grupo de trabalho nomeado pelo ministro Miguel Relvas para definir o conceito de serviço público de comunicação social. O que resta do documento que saiu desse grupo?
R - Estive disposta a trabalhar para defender a informação da RTP como vector estruturante do serviço público de comunicação social. A tese que vingou no documento foi o fecho da redacção da RTP e a contratação da informação a uma produtora externa.

P - Essa tese ainda vinga?
R - Não. As declarações do ministro Miguel Relvas não a apoia.

P - Como vê o futuro imediato da RTP?
R - Espero que as teses de António Borges não vinguem. Espero que o fecho de um canal e a concessão de outro seja um posicionamento pessoal. Segundo o programa do Governo, há a intenção de privatizar um canal. Voltamos à definição de serviço público e de como é que ele se concretiza quando se privatizar um canal.

P - O mercado aguenta outro canal?
R - Acho que não. Marcelo Rebelo de Sousa diz na entrevista para o meu livro: “A alienação de um canal da RTP é um tiro monumental nos canais generalistas privados em que um deles, provavelmente, morrerá num prazo não muito longo”.

P - E o Estado pode continuar a manter dois canais?
R - O Governo diz que não.

P - Estão a surgir, no cabo, produtos muito específicos com a ‘Bola TV’ ou a ‘Correio da Manhã TV.’
R - É a tal fragmentação dos produtos. Nestes casos estamos a falar de sinergias em grupos media de sucesso. Nos próximos anos, a televisão vai andar muito por aí.

P - E os canais de televisão regionais?
R - Se houvesse projectos de imprensa regional consolida-dos, poder-se-ia esticá-los até à televisão. Uma televisão regional precisa de uma imprensa sólida que a ajude a sustentar uma agenda.

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