O filósofo e sociólogo Edgar Morin, que hoje participa em Viseu num colóquio sobre Educação promovido pelo Instituto Piaget, defende uma 'reforma radical' do modelo de ensino nas universidades e escolas, salientando a necessidade de acabar com a 'hiperespecialização'.
'Temos a necessidade de reformar radicalmente o actual modelo de ensino nas universidades e escolas secundárias. Porquê? Porque actualmente o conhecimento está desintegrado em fragmentos disjuntos no interior das disciplinas, que não estão interligadas entre si e entre as quais não existe diálogo', sublinha, em entrevista à Lusa.
O filósofo francês considera que o modelo actual leva a 'negligenciar a formação integral e não prepara os alunos para mais tarde enfrentarem o imprevisto e a mudança'.
Edgar Morin, de 88 anos, critica, por exemplo, que nas escolas e universidades 'não exista um ensino sobre o próprio saber', ou seja, sobre 'os enganos, ilusões e erros que partem do próprio conhecimento', defendendo a necessidade de criar 'cursos de conhecimento sobre o próprio conhecimento'.
Lamenta, igualmente, que a 'condição humana esteja totalmente ausente' do ensino: 'Perguntas como 'o que significa s
er humano?' não são ensinadas', critica.
Por outro lado, acredita que a 'excessiva especialização' no ensino e nas profissões produz 'um conhecimento incapaz de gerar uma visão global da realidade', uma ‘inteligência cega’'.
'Conhecer apenas fragmentos desagregados da realidade faz de nós cegos e impede-nos de enfrentar e compreender problemas fundamentais do nosso mundo enquanto humanos e cidadãos, e isto é uma ameaça para a nossa sobrevivência', defende.
'Está demonstrado que a capacidade de tratar bem os problemas gerais favorece a resolução de problemas específicos', garante Morin, lembrando que a maioria dos grandes cientistas do século XX, como Einstein ou Eisenberg, 'além de especialistas, tinham uma grande cultura filosófica e literária'.
'Um bom cientista é alguém que procura ideias de outros campos do conhecimento para fecundar a sua disciplina', afirma, sublinhando que 'todos os grandes descobrimentos se fazem nas fronteiras das disciplinas'.
Garante também que 'apesar de em muitas universidades norte-americanas existir maior flexibilidade no que toca ao modelo ensino', nos Estados Unidos existe o 'mesmo problema que na Europa'.
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